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– Os gregos não sobrecarregavam Deus. Sua índole democrática estendia-se aos assuntos da religião: eles tinham vários deuses incumbidos de tocar o mundo adiante. Parece ter funcionado bem. Existir um só deus é uma ideia antipática, que faz lembrar a história do coroa perna de pau a quem dão a camisa 10 por ser ele o dono da bola. Não me recordo de ter lido, em nenhum texto bíblico, que Deus soubesse bater um escanteio.

– A literatura nos engoda quando proclama a perenidade de seus deuses e nos incita a acreditar na nossa própria, se a eles formos semelhantes. De qualquer modo, se de algum deus, eterno ou não, quero ser súdito é de, digamos, Shakespeare.

– Shakespeare, pronuncio o teu nome como um crente pronuncia o nome de Deus.

– Hoje ele se olhou no espelho ao sair do banho e começou a rir ao ver seu ventre. Que desfaçatez é a dos que dizem ter sido o homem feito à semelhança de Deus. Com a idade que Deus já deve ter, não seria o caso de sentirmos piedade por Ele?

– Se não acreditarmos na existência de Deus, a quem dirigiremos nossas indagações, nossas súplicas e, principalmente, nossas queixas? Sem Deus, a quem culparemos por nossa incapacidade e incompetência? Deus é o nosso Mordomo preferido e, como os aristocráticos assassinos de Agatha Christie, traz sempre sua adaga de prata ensanguentada, na qual jamais encontrarão nossas digitais.

– Deus andou por aqui esta madrugada. Vi vestígios de Seus passos, embora Ele os tenha feito leves, para não me acordar. Se me despertasse, sabe que eu me agarraria a Ele e Lhe perguntaria que pecados carrego de outros tempos, que crimes cometi. Devo ter matado inocentes e dizimado rebanhos. Devo ter me me banhado na luz de Lúcifer e, com meus cascos de bode, marcado o peito de mil e duzentas virgens. Deus me mantém longe, Deus não me quer entre os Seus.

– Se Deus fosse recatalogar os homens de acordo com o temperamento, as predisposições, o caráter, não creio que chamasse Freud para ajudá-Lo. Os candidatos favoritos eu imagino que seriam Shakespeare e Dostoiévski. E, se Ele decidisse optar por um psicanalista, creio que o escolhido seria Arthur Schnitzler, que era também romancista. Personagens em ação tornam-se bem mais interessantes do que meramente nomes num script, e Deus talvez se revelasse, finalmente, um bom diretor.