Nossas alegrias e decepções, hoje, vão todas parar nas redes sociais. Acordamos, abrimos a janela, sorrimos para o sol e, se o sol nos retribui, teclamos: que belo dia! Dali a um minuto já recebemos três respostas. A primeira é: “Só se for aí. Aqui, chuva com inundações. Goteiras na casa toda.” A segunda é sucinta: um polegar para baixo. A terceira é daquelas que nos fazem repetir, para nós mesmos, aquela pergunta: “Por que eu sei a escalação da seleção de 70 e não aprendo a manter minha boca fechada?”

Essa terceira resposta é de uma de nossas mais antigas amigas virtuais, que – em palavras irreproduzíveis aqui – diz mais ou menos isto: que ela estranha chamarmos de belo dia justamente esse no qual acaba de morrer o gato de sua vida, a Meg. “Não vai dizer que você não pegou a mensagem.”

Íamos exatamente alegar que não, não lemos, que só neste minutinho ligamos o micro, mas um alerta se acende: nossa amiga certamente nos dirá que diabo de pessoa degenerada, insensível e alienada somos nós para ligar o computador só às nove da manhã!

Há discordâncias desse tipo, que, embora pareçam bobocas, chegam a provocar ameaças de exclusão e de rompimento. E há as mais graves, que, também iniciadas nas redes, acabam derrubando amizades no chamado mundo real.

Política, futebol, música, o cabelo de uma atriz, a cor azul de um vestido verde, ou vice-versa, tudo é discutido por nós com uma paixão que terminaria em tapas e pescoções, se pudéssemos dá-los pela internet.

Melhor assim. Que fiquemos nos desafios verbais, nas bravatas. Essa palavra tão antiquada – bravatas – me faz retroceder algumas décadas e recuperar a imagem de um valentão que, para manter a fama no bairro, saía às ruas no horário nobre e, com os pelos ruivos escapando da camiseta, punha-se a berrar, sem preocupações gramaticais:

“Eu sou homem, estão me ouvindo? Muito homem. Homem com ó maiúsculo!”