A expressão crueldade mental talvez não esteja mais na moda, pode ter sido substituída por outra menos antiquada, mas acredito que, se alegada em juízo, seja capaz ainda de ser tomada como causa válida para um divórcio.

Lembro-me de separações de celebridades – especialmente de estrelas de Hollywood – em que não era preciso apresentar mais nenhum motivo para o juiz bater favoravelmente o martelo.

Geralmente eram as mulheres que usavam esse argumento, e muitos dos homens acusados, quase sempre heróis nas tramas cinematográficas, passavam a ser vistos por milhões de fãs como falsos, e não era raro que sua popularidade caísse – e, com ela, a bilheteria dos seus filmes. Recordo-me de minha mãe fazendo um comentário sobre um desses galãs: “Aquele ali não engana mais ninguém, com aquela cara de santinho.”

Quem apanhar revistas dos anos 1950 e 1960, quando a crueldade mental teve seu apogeu, encontrará casos que hoje mais parecem fruto da imaginação de roteiristas. Vejamos:

* Uma diva hollywoodiana requereu o divórcio sob a alegação de que o marido, um célebre ator, não parava de provocá-la, dizendo que era shakespeariano e que ela não passava de uma atrizinha de musicais.

* Outra diva, esta artista lírica, acusou o marido de, já nos estertores do casamento, cantarolar para ela, ao menos uma vez por dia, a musiquinha infantil “Atirei o pau no gato”, com os dedos entrelaçados no peito e voz de soprano, igualzinha à dela.

* Caso muito interessante foi também o da mulher que exigiu a separação porque, numa grande festa em sua casa, ouviu sua cachorrinha ser chamada de Mijona pelo marido.

Mas também os homens se diziam frequentemente vítimas da crueldade mental:

* Um ator famoso por seus músculos e por protagonizar filmes baseados nas façanhas de Hércules, Maciste, Sansão e outros colossos, conseguiu desfazer seu vínculo matrimonial ao relatar ao juiz uma cena doméstica deprimente e continuada.

A mulher vivia a lhe dizer que ele merecia mesmo a fama que tinha. Tudo nele, ela reconhecia com um jeito malicioso e reticente, era maior do que nos outros homens: os braços, as pernas, o peito. Tudo menos o pé esquerdo, menor que o direito, ressalvava ela.

Essa particularidade – a de o pé esquerdo ser menor que o direito – era lamentada pelo homem principalmente pelo modo como a mulher se referia a ela. Segundo o marido, a mulher poderia mencionar essa deficiência de maneira mais delicada.

O juiz quis saber como seria isso. O homem respondeu: “Ela poderia dizer que meu pé direito é maior que o esquerdo.” Enquanto o juiz sorria, o homem terminou: “Até porque isso é a mais absoluta das verdades.”

O juiz acatou o pedido de divórcio antes que ele cumprisse a ameaça de tirar os sapatos, as meias e anexar os pés ao processo.