Cheguei a uma idade em que já deveria ter algumas convicções. Gostaria de poder considerar-me (e proclamar-me) adepto de uma filosofia, de uma religião, de uma corrente artística, de uma escola literária, mas tudo que tenho são só pontos de vista. Alguns deles trago da infância e, quando me lembro deles, pergunto-me de que me adiantaram tantos estudos, tantas viagens, tantas leituras.

Toda a minha sabedoria me deu lastro apenas para pronunciar-me diariamente nas redes sociais em favor de uma opinião, ou contra – e quase sempre influenciado por um amigo ou amiga que ama ou odeia Kim Kardashian, Charlie Sheen ou a Madonna.

Sei – e nem tenho essa pretensão – que não salvarei o mundo nem o destruirei. Isso me incomoda. Sinto-me como um daqueles tipos que, pela delicadeza de modos, eram antigamente chamados de peralvilhos ou salta-pocinhas.

Já tive impulsos de endurecer-me, ainda que correndo o risco de perder a ternura. Tentei, mas permaneci o mesmo: basicamente um banana.

Na internet, volta e meia procuro firmar uma posição, mas jamais me atrevo a ir além de dizer coisas como:

– Entre os Arnaldos, execro o Antunes e exalto o Baptista.

– Por admirar o piegas e o kitsch, se fosse indicar a melhor série da tevê, seria Pé na cova.

– Fernanda Montenegro seria uma atriz ainda melhor se tivesse um pouco mais de Fernanda Torres.

– Larry David pode não ser tão bonito quanto eu, mas é seguramente mais chato.

– As melhores duplas sertanejas são aquelas em que um é mudo e o outro não canta.

– Se Roberto Carlos e Luan Santana se dessem as mãos e caminhassem para muito além do horizonte, talvez eu não achasse poético nem romântico, mas meus ouvidos agradeceriam.

– A cada dia Jean-Paul Sartre é mais Simone de Beauvoir.

– O programa da Fátima Bernardes, assim como certos deliciosos produtos dietéticos, não faz mal nenhum à saúde.

– Se um dia vierem a nos faltar vogais, a culpa é do The voice Brasil. Depois de cada programa, equipes de resgate são chamadas para recuperá-las. Se cantar é aquilo, o que fazia o João Gilberto?

– Não tenho ainda opinião sobre os novos humoristas. Eles estão ficando velhos e não acredito que nenhum tenha conseguido permanecer por um semestre inteiro numa tevê. O segundo programa fica só na promessa feita no primeiro. Mas a assessoria dos garotos consegue fazer o público acreditar que eles estão a cada semana rescindindo contratos milionários para firmar contratos bilionários. Parece que o humorismo agora é um negócio sério. Tão sério que minhas últimas gargalhadas eu as devo ao Chico Anysio, para vocês terem ideia.

– Se um dia se desfizer a dupla, o Louro José terá muito mais chances que a Ana Maria Braga de iniciar um voo solo.

Reconheço: são besteirinhas que dificilmente valerão polêmicas, mas, se valerem, prometo responder à altura. Venham fervendo. Ou, como dizia um desses tipos que amam os plurais: “Podem virem.”