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Anteontem, Vilma quase passou direto. O menino esquelético e remelento, sentado na calçada, era só mais um entre tantos meninos esqueléticos e remelentos da cidade. Para não dar chance à compaixão, ela – que é chamada pelos amigos de Vilma Coração de Manteiga – fechou os olhos. Forçou-se a pensar em coisas agradáveis. E imaginou como seria o almoço com as colegas de escritório, para comemorar o Natal, num restaurante famosíssimo.

Antegozando delícias, pressentiu – fixados nela como uma condenação – os olhos do menino. Fez a mão mergulhar na bolsa e pegou algumas moedas. Ao trazê-las à tona, lastimou porque eram poucas e, reunidas, representavam quase nada. Caminhou para o menino e, a dois passos dele, resgatou do fundo da bolsa uma nota. Juntou-a às moedas e pôs tudo no colo do garoto. Ele olhou para ela com apatia. Vilma desculpou-se:

“Eu só tenho isso.”

Saiu correndo, sufocada pela mentira. No escritório, caiu em tão funda melancolia que lhe perguntaram o que tinha acontecido. Nada, ela respondeu. E odiou-se depois da nova mentira. No almoço, lembrando o menino, não comeu nada e não aproveitou a festa.

Ontem, pensou em mudar de caminho, mas sentiu-se tão perversa que se obrigou a acelerar o passo ao se aproximar da rua onde tinha visto o garoto. Ele estava no mesmo lugar. Ao seu lado, Vilma viu um velho maltrapilho. Ela tirou da bolsa duas notas que, somadas, davam o dobro da véspera. Passou o dinheiro ao menino, esperando um sorriso que não veio. O homem cutucou então o garoto e cochichou com ele. O menino ergueu o rosto para Vilma e, secamente, murmurou:

“Obrigado. Deus que ajude.”

Vilma afastou-se, arrasada. Tinha dado mais, mas não o suficiente. No escritório, precisou resistir à vontade de chorar. À tarde, quando o namorado ligou, ela recusou o convite para jantar. Foi para casa, deitou-se cedo e, tentando não pensar nas injustiças do mundo, dormiu.

Hoje acordou disposta, pensando no garoto, correndo para encontrá-lo. Decidida a serenar a consciência, assim que o viu estendeu para ele três notas graudinhas e ficou esperando: achava que dessa vez não lhe seria negado o sorriso.

Como ontem e anteontem, o garoto ficou impassível. Quando ela, com os olhos úmidos, começou a se afastar, o velho, que estava de novo com o garoto, cochichou alguma coisa com ele e, um instante depois, Vilma ouviu:

“Tia, você pode me dar mais um dinheirinho? Meu avô e eu estamos com fome.”

Vilma Coração de Manteiga parou, olhou para trás e berrou:

“Vão para o inferno. Os dois. Os dois! Vocês estão pensando que eu sou o quê? Uma burra? Acham que eu preciso sair por aí comprando sorrisos?”

Chegou ao escritório chorando tanto que um office-boy arriscou:

“Gente, morreu a mãe dela. Só pode.”