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+ Ora, trocar beijos… Que transação é essa, o que pode haver mais fácil do que isso? Beijos não se trocam. Beijos se dão, e neles há de haver mais de alma que de lábios e boca. Beijos devem ser a entrega única, total, a rendição absoluta, sem margem para arrependimentos.

+ No início ele pediu abraços ao amor; depois, implorou beijos. Assim começou a história no fim da qual se viu sem alma.

+ Ele gostaria de morrer tão sufocado de beijos que não pudesse sequer dizer o nome do seu assassino: o amor.

+ Ele a beijaria como se ela fosse uma mulher que tivesse sido amada por duzentos homens, trezentos, talvez mais. E em cada beijo tentaria fazê-la acender-se como se acendera em cada um dos investigativos beijos dos duzentos, dos trezentos ou talvez mais.

+ Dançavam. Descalça, ela subiu nos sapatos dele e, bebida por beijos que o bolero ia tornando a cada instante mais cálidos, deixou-se conduzir para o quarto com um vagar que ao mesmo tempo adiava e antecipava o mútuo prazer.

+ Quando os beijos já superavam duas dezenas, e cada um que se acrescentava era mais longo que todos os anteriores, ele imaginou por quanto tempo conseguiria, só com eles, manter ainda em seus braços aquela mulher que começava a arfar como uma triatleta concentrando-se para o esforço final numa prova.

+ O salva-vidas que foi socorrer o poeta com a respiração boca a boca começou a sentir seus beijos retribuídos e a ouvir um nome: Amélia, Amélia.

+ Antes que se iniciasse a rotina de datas, comemorações e efemérides, antes que os beijos de ontem começassem a ser comparados depreciativamente aos beijos de anteontem e as palavras deixassem de eriçar a pele, sensatamente o amor se perdeu num atalho e desapareceu.

+ O amor deveria ser como um passatempo domingueiro, um passeio pelo parque, uma troca de sorrisos e de beijos miúdos – nada que obrigasse ninguém a nenhum compromisso, a não ser talvez o de um encontro no domingo seguinte, desde que, naturalmente, houvesse sol.