No asilo, ele é conhecido como O Poeta. Sisudo, melancólico, parece estar sempre alheio a tudo, por uma inflexível disposição da vontade. Não joga dominó, não participa dos saraus que as irmãs de caridade vivem organizando. Quase não conversa com os outros velhos. E, ao contrário de todos, que têm sempre muitas histórias para contar, ele, quando se dispõe a falar, narra sempre a mesma, sobre um homem que amou mais do que a sensatez humana pode compreender e tolerar, um desses amores tresloucados que as pessoas só admitem no cinema, no teatro ou na televisão.

Todos ali conhecem essa narrativa, monótona em sua repetida obviedade, mas a ouvem até o final, a melhor parte dela, quando ele, o protagonista, lamenta a paixão não correspondida, porque a amada jamais acreditou em suas palavras, e diz, com os olhos nublados pela catarata e pelas lágrimas:

“Eu jurei a ela que era amor. Desde o primeiro dia, o primeiro encontro. Mil vezes, um milhão. Jurei em verso, em prosa. Me ajoelhei para jurar. Jurei beijando os dedos, como um garotinho. Jurei em nome de Deus, como um beato.”

Nesse instante ele sempre para e pergunta aos outros velhos:

“Estão vendo as borboletas?”

Eles dizem que sim, e O Poeta, com o rosto iluminado, comenta:

“Toda vez que eu jurava, e que ela dizia que era mentira minha, essas borboletas apareciam e faziam esses desenhos no ar. Eu mostrava para ela, e ela ria: onde, onde? Mulher perversa! Destruiu a minha vida!”

Todos já notaram que ele conta a história cada vez menos. Está há seis anos já no asilo e a suposição é a de que talvez tenha pudor de cansar os outros velhos, embora muitos deles já tenham ido embora, levados pela morte.

Ou talvez esteja ficando mais difícil invocar o testemunho das borboletas em defesa de suas juras de amor.