Para mim, foi mais que uma surpresa revê-la, tantas décadas depois. Foi bem mais – foi um espanto. Na galeria do centro – tão longe do bairro da nossa adolescência -, eu a reconheci. Como ela podia estar tão igual àquela que havia sido quando, pedalando sua bicicleta vermelha, passava sem notar a aflição que causava entre os meninos? Como ela podia ter ainda o mesmo nariz petulante de princesa, os olhos verdíssimos e os lábios nascidos para dizer vogais ensolaradas e nomes de flores?

Ela entrou na livraria, eu entrei também. Ela foi para a estante de poesia, eu também. Ela se fixou na letra A, eu me esgueirei para a Z. Não arranjaria coragem para falar com ela, se ela não me tivesse olhado com algo que parecia curiosidade e se, no instante seguinte, não me houvesse perguntado:

“Você não é o…?”

O que eu nunca havia conseguido anos antes, por minha absurda timidez, tornou-se inacreditavelmente possível. Começamos a conversar. Falamos de poesia, da brasileira, e nos descobrimos fanáticos por Vinicius, Drummond e Quintana.

Levamos quinze minutos assim, lembrando-nos dos poemas que talvez já lêssemos na adolescência e que poderiam ter nos aproximado então. Rimos ao evocar o passarão/passarinho: ah, o Quintana, que espírito, que ironia.

O celular tocou, ela pediu licença, atendeu. Era uma mensagem de texto, que a fez sorrir antes de responder com ansiosa rapidez. Depois, ela voltou os olhos novamente para a estante, mas sua atenção já se dissipara. Citei a Ana C. e o Leminski, como último lance. Ela disse amar os dois, mas já começara a olhar para a saída da livraria.

Comentou estar com pressa, abriu um sorriso de despedida e disse a frase fatal: a gente se vê por aí. Trocamos beijinhos no rosto e aí, como se de repente se lembrasse dos olhares que eu lhe dirigia tanto tempo atrás, ela perguntou:

“Você ainda gosta dos Beatles?”

“Gosto.”

Imaginei que essa pergunta pudesse ser só a preparação para a seguinte, mas ela não me perguntou:

“E de mim, você gosta ainda?”

Logo, andando com pressa, ela foi se afastando de mim. Ainda esperei que ela virasse o rosto e me fizesse um sinal, me desse um tchau. Mas ela não fez nem uma coisa nem outra, e novamente se estabeleceu entre nós aquela distância de muitas décadas.