Luís se lembra de um conto de Machado de Assis em que um rapaz se apaixona pelos braços de uma mulher. Quando o leu, há muitos anos, achou aquilo coisa de escritor. E escritor antigo, de um tempo no qual as mulheres não se exibiam tão generosamente como agora.

Apaixonar-se por um par de braços hoje é algo totalmente sem nexo, ele pensa, sorrindo com a superioridade de um homem do século XXI.

Ele está apaixonado por uma voz. Apaixonar-se por uma voz não lhe parece um disparate. Se alguém lhe dissesse que é, traria o autor da infeliz opinião ao banquinho do shopping em que ele está sentado agora, diante da máquina de onde Márcia vai tirando e servindo sorvetes.

Há três dias, desde que a voz o atingiu em pleno coração, ele, que trabalha em outra loja no shopping, usa sua hora de almoço para ficar ali sentado, ouvindo Márcia perguntar: de morango ou de chocolate?

Nesses três dias, não se atreveu a entrar na fila. Sabe que, se ela lhe perguntar se é de morango ou de chocolate, ele se transformará numa estátua.

Alguém lhe toca o ombro. É um rapaz que trabalha com ele e que o convida:

“Vem tomar um sorvete, Luís.”

Ele diz que não quer.

“Vamos, seu pão-duro. Eu pago”, insiste o rapaz e o puxa pelo braço.

Márcia precisa atender três fregueses antes deles e conversa agora com o primeiro, que lhe diz alguma coisa engraçada. Ela ri, e Luís olha para todos os lados, menos para ela. Que riso, meu Deus, que riso. Começa a suar frio.

“Está se sentindo mal?”, estranha o colega.

“N…n…ão. Tudo bem.”

“Nem tomou o sorvete ainda, e já está gelado…”

Chega a vez deles. Sem dizer nada, Márcia passa um sorvete de morango ao colega de Luís e pergunta a este:

“Morango também?”

Ele faz que sim, com a cabeça. Treme ao pegar o sorvete, quase o deixa cair. Vai enfiando a pazinha e lambiscando, enquanto o colega diz a Márcia:

“Às oito, então?”

“Às oito, lá.”

A partir daí, Luís não ouve nada até o momento em que, já de volta à loja, o colega lhe diz:

“Ah, essa Márcia. Isso é que é mulher! Que saúde! E que fogo ela tem na hora H, Luís! Uuuhhh! Se você visse… Só a voz é esquisita, você não acha? Não sei, parece assim meio… meio… voz de homem. Mas as pernas… Luís, você já viu pernas iguais? Vou dizer, eu sou apaixonado por aquelas pernas! Apaixonado!”