pixabay

Ontem à noite ele teve uma experiência estranha com uma garota. Passando por uma rua do centro, encantou-se com o som de um bolero que vinha do primeiro andar de um prédio e, por um desses impulsos que às vezes movem um solitário, subiu a escada. Logo se viu dentro de um salão inesperadamente grande e sentado a uma mesa de canto, mas com boa visão do tablado onde uma dezena de casais dava passos lânguidos, seguindo as notas de um conjunto que tocava La barca com exemplar esforço.

Estava num bar-dançante, e  – lembrando-se de uma experiência bem antiga – perguntou-se como tinha podido entrar desacompanhado. Quando o garçom se aproximou, ao mesmo tempo uma garota veio pedir licença para sentar-se ali. Chamava a atenção pelos cabelos de fogo e por um aparelho nos dentes que parecia mais um adorno que uma necessidade. Ele pediu uma cerveja, ela aceitou beber um copo.

“Você vem sempre aqui?”, ela perguntou.

“Primeira vez. Estava passando e…”

Ela riu:

“Engraçado. Eu também. Ouvi a música e não teve jeito.”

“Vamos dançar?”, ele sugeriu.

“Acho melhor não.”

“Por quê?”

“Ah, eu estou atrasada para um encontro. Vou embora depois de acabar meu copo.”

Ele vinha de uma rejeição amorosa não muito distante, e essa recusa de uma dança, num local em que dançar era o que havia para se fazer, reavivou sua perda.

“Nem uma música? Um girinho pelo salão”, ele insistiu.

“Não. Você é uma gracinha, mas eu não posso, mesmo.”

“Esse seu encontro é com o namorado?”

“Não.”

“Marido?”, ele perguntou, olhando para a mão esquerda dela, que erguia o copo.

“Mais. Muito mais que isso.”

Ela começou a se levantar da cadeira. Ele a olhou, ainda com esperança. Ela lhe pôs a mão no ombro:

“Me desculpe. Eu já disse. Você é fofo. Mas eu tenho uma…”

O celular dela tocou:

“Oi, Dininha. Não estou ouvindo bem. A música? Depois eu explico, amor. Em dez minutos eu chego aí.”

Enquanto a garota, depois de atirar um beijo com a mão, se afastava, ele reviu uma cena de um ano antes. Ele tentando desarrumar a mala da mulher muito amada, implorando-lhe que ficasse,  e perguntando, perguntando, perguntando, sem resposta:

“Me diz ao menos por quê, me diz, Dininha, por quê, por quê?”