Ela viu o livro esparramado entre outros, num desses sebos de calçada. A capa estava amarelada e rasgada, não tanto que ela não pudesse ler o título e o nome do autor: Primaveras, de Casimiro de Abreu. Lembrou-se de ter ouvido a avó materna dizer que nunca havia lido um livro mais delicado. Com cuidado, para não dilacerar ainda mais a capa, ela resolveu dar uma folheada.

Nos dados sobre o autor, ela se impressionou ao saber que ele, na sua curta vida, tinha sido sempre um incompreendido por se sentir um poeta e jamais haver recebido simpatia ou apoio para realizar esse ideal. Dali a pouco, estava lendo estes versos:

“Oh! Que saudades que tenho/Da aurora da minha vida,/Da minha infância querida/Que os anos não trazem mais!/ Que amor, que sonhos, que flores,/Naquelas tardes fagueiras/À sombra das bananeiras,/Debaixo dos laranjais!”

Suspirou. Que ritmo maravilhoso. E que pureza! Puxa, eram coisas de outro tempo, mesmo. Como a avó tinha definido o livro? Delicado. Isso, era isso que ele era: delicado.

E ela se imaginou vivendo nessa época, amada por um homem afetuoso, quem sabe até um poeta, quem sabe o próprio Casimiro. Comprou o livro, pagando quase nada por ele, e estava voltando para o trabalho, porque acabara a hora do almoço, quando foi alcançada por três colegas: Darlene, sempre saltitante e desejosa de se fazer notar, Tomás, o namorado, também um bocado presunçoso, e Áureo, o loirinho pálido que tinha sido contratado naquela semana.

Ainda influenciada pelos belos versos, ela achou nobre a palidez de Áureo e também lhe soou bem o nome, que evocava ouro. Darlene e Tomás passaram por ela, andando rapidamente, parando apenas para alguns beijinhos estalados. Ela ficou para trás, com Áureo. Ele dava a impressão de ser tímido, o que pareceu também um bom sinal para ela. Estavam sem saber o que dizer, até que ele apontou o livro na mão dela:

“Você gosta de ler?”

“Gosto, sim. E você?”

“Ah, eu não sou fanático, mas de vez em quando leio, sim.”

Ela ia perguntar se ele queria dar uma espiada no livro, quando ele disse:

“Eu leio quase tudo. Só não gosto de livros bobocas, sabe?”

“Bobocas?”

“É. Esses, como é o nome deles? Esses que querem ensinar a gente a ser milionário.”

Ela riu:

“Eu também não.”

“Ah, e também não gosto de livros de poesia. Acho tudo uma bobajada.”

Ela acelerou o passo e, um instante depois, estava ao lado de Darlene e Tomás, dizendo alto, bem alto, como se falasse num megafone oferecendo saldões:

“Esse novato é um chato de galocha.”

“O quê?!”, perguntaram Darlene e Tomás.

“Um chato de galocha”, ela repetiu, ainda mais alto. Era uma expressão que a avó usava para os que ocupavam o mais elevado posto entre os chatos: os intoleráveis.

A avó sabia das coisas.