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Ainda meu Vila Morais

Raul Drewnick

01/12/2017, 9:35

Mais um trecho percorrido pelo 4734

pixabay

Na semana passada, falei dos heroicos ônibus paulistanos, especialmente do meu, o 4734, e parei a crônica quando, depois das peripécias de embarque, na estação Saúde, ele havia acabado de entrar na Avenida Jabaquara. Retomo-a agora.

Os passageiros parecem sempre os mesmos, a qualquer dia e hora. No meio do ônibus, vai um senhor que todos chamam de seu Atílio ou de Professor. Hoje (pode ter sido ontem, também, ou no mês passado), ao ouvir as queixas dos que viajam em pé, ele diz:

“Gente, não há do que reclamar. O próprio nome está dizendo: ônibus vem do latim omnibus e significa para todos.”

Uma voz de mulher se ouve:

“Tudo bem. Eu acho que podia ser para todos, já que o senhor está dizendo, mas não precisava ser para tantos assim, seu Atílio…”

Depois de algumas gargalhadas, um garoto pergunta:

“Professor, o que é esse latim?”

“É um idioma, uma língua.”

“Ah, então o latim é como o português, o brasileiro…”

“Não, em latim é omnibusOmnibus. Em português é que é ônibus.”

Outra voz adolescente se ouve:

“Agora é busão.”

Seu Atílio admite, a contragosto:

“Busão é uma mistura de inglês com português.”

“Mas como é mole esta lacraia. Quando eu chegar em casa, meu irmão vai ter comido todo o meu rango.”

“Mole? Você devia ver então como era o bonde.”

“Bonde?”, pergunta outro garoto, com cara de gaiato.

“É”, responde o Professor, ainda contrariado.

“E o que era esse tal de bonde?”

“Um meio de transporte. Andava em cima de trilhos.”

“Que nem trem?”

“É”, diz o Professor, agora com paciência resignada. “Era elétrico.”

“Era ligado numa tomada?”

O Professor comenta, baixinho:

“O problema deste país é a ignorância.”

“Tinha que pôr pilha nele?”

Aí a discussão é silenciada pelo motorista, que exclama:

“Ai, meu Deus.”

Acaba de entrar uma mulher com uma microssaia e todos os olhares se voltam para ela. Quando ela passa pela catraca, o cobrador tira do bolso uma carteira e olha para uma foto, beijando-a:

“Ai, Rosalinda, ninguém como tu.”

Mas logo guarda a carteira e fica observando a mulher que, pedindo licença aqui e ali, tenta ir para o fundo. Como se fosse um eco do motorista, ele suspira: “Ai, meu Deus.”

Um cheiro de pastel vem da feira pela qual o ônibus agora passa, e as narinas se empinam. Alguém pergunta:

“Já  viu como tem pastel esquisito agora? Pastel de tudo.”

“Qualquer dia vai ter pastel em lata”, dá sua opinião um rapazinho.

O celular do cobrador toca:

“Oi, Rosalinda. Fala. Levar uma massa de pastel? Acabamos de passar pela feira. Talvez na volta, vamos ver. Mas não dá pra ficar parando o ônibus assim à toa. As crianças estão bagunçando aí?”

A mulher de microssaia conseguiu abrir caminho e está diante do banco onde se senta o Professor. Ele lhe oferece o lugar. Uma senhora, em pé, diz baixo, para outra:

“Pra nós ele nem olhou.”

A mulher recusa o lugar, tenta puxar a saia um pouco para cima, sem sucesso, e pergunta ao Professor:

“A Rua São Fernando está perto?”

Neste ponto eu interrompo a viagem. Espero terminá-la na próxima semana. Passagem por minha conta.

 

 

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