Anteontem de manhã acordei com uma estranhíssima pergunta me cutucando: e o senhor Grey? Pois é, logo cedo uma indagação de tão forte apelo existencial: e o senhor Grey? Reagi imediatamente, com outra pergunta: e o que é que eu tenho a ver com o senhor Grey?
Tentei voltar ao meu cotidiano. Numa quarta-feira de Cinzas, com alguns fiapos do carnaval ainda no ar, não iria ser um senhor Grey qualquer que me empataria o tempo.
Tomei o café, fui para o micro e procurei concentrar-me em algum assunto que pudesse interessar aos cinquenta e quatro leitores do meu blog. Pensei em literatura, nos livros recentes que li, nas figuras que não costumam negar fogo quando preciso delas: os Shakespeares, os Borges, os Machados.
Nesse instante, o senhor Grey se aproveitou e impôs seu retorno. Perguntou: você já me leu? Eu estava pensando em uma resposta educada, em uma desculpa razoável para não ter lido suas aventuras mundialmente conhecidas, quando ele me pôs contra a parede: você não foi nem ver meu filme, não é?
Eu já estava francamente irritado com ele e pensei em dar uma resposta desbocada: não li, não vi e não gostei. Aí, certeira como um punhal assassino, a questão se apresentou como eu deveria tê-la visto desde o começo: eu não tinha o direito de ignorar o senhor Grey. Ora, ora, o mundo todo falando dele, e eu querendo esnobá-lo?
Tentei ainda uma saída honrosa: dizer que, sendo ele um herói de estripulias eróticas, me bastava a opinião de uma especialista. Madonna espinafrou o senhor Grey. Segundo ela, ele não dá nem para acender um tesãozinho. Pronto, ali estava a solução. Nada de me intimidar com a fama do senhor Grey. Comigo ela não ia funcionar.
Abri o micro e, enquanto esperava que meu blog se configurasse, me peguei escrevendo isto, com a Bic, no meu bloquinho:

Havia certa malícia
No modo com que me olhaste,
A língua movimentaste
E disseste: que delícia.

E havia certo langor
No jeito com que, me olhando,
E o sorvete lambiscando,
Suspiraste: que calor.

Depois, guardando a linguinha,
Mordeste toda a casquinha,
Fazendo um ruído rascante.

Menina doida, pensei,
Vai ver que esse senhor Grey
É seu mais recente amante.

Ah, as voltas que o mundo dá. Quem diria: eu escrevendo um soneto inspirado no senhor Grey. Ah, o senhor Grey…