A vida é bela, mas tem seus espinhos. Um deles é a gramática. Nove e meia entre dez pessoas a detestam, ou temem, e essa outra meia pessoa é certamente um gramático defendendo seu ganha-pão – e defendendo sem plena convicção, por saber, melhor que ninguém, como é traiçoeira a gramática. A crase, por exemplo, se houvesse uma pesquisa, seria considerada uma praga tão terrível quanto a falta de dinheiro ou de água. Nosso poeta Ferreira Gullar, merecidamente célebre por tantos aspectos, deve boa parte de sua fama à frase segundo a qual a crase não foi feita para humilhar ninguém.

E as vírgulas? Quem sabe quando colocar uma ou tirar outra? Há os que pensam que as vírgulas não passam de um ornamento. Os adeptos dessa corrente dividem-se em dois grupos: o dos que pregam uma generosa distribuição de vírgulas pelo texto e o dos que julgam bem mais artística uma distribuição parcimoniosa e bem equilibrada.

Essa visão artística seria muito bem-vinda, convenhamos. Talvez acabassem, ou ao menos diminuíssem, as polêmicas. Porque hoje, se dermos um texto longo para cinco especialistas virgularem, não teremos duas versões iguais.

O problema é antigo. Do meu tempo de revisor lembro-me de um colega de jornal que sugeria encarar a virgulação como uma questão ligada ao aparelho respiratório. As vírgulas estariam sujeitas ao arbítrio dos pulmões, abolindo-se todas as demais regras. Toda vez que, lendo um texto em voz alta (era a única condição exigida por esse método), fosse necessária uma pausa para tomar fôlego, zás!, deveria assinalar-se uma vírgula.

Esse mesmo revisor revolucionário propôs uma solução para outro problema: a acentuação. Seriam descartadas todas as recomendações até então em uso e substituídas por uma só: sempre que se levantasse o pescoço, zás!, se acentuaria a palavra: Catandúva, Botucatú, Paranápiacába. Talvez essa tentativa de revolução tivesse alcançado êxito, se alguém (há sempre um desmancha-prazeres) não houvesse apontado um inconveniente: como faria quem, padecendo de um torcicolo, não pudesse mover o pescoço ou o tivesse, como um personagem da literatura fantástica, deixado em uma casa de penhores para conseguir um dinheirinho?

Ah, a gramática, sempre nos contrariando, sempre nos chamando de parvos, sempre nos mostrando a língua e nos dando banana, com aquela cara de superioridade. Não é à toa que  Luis Fernando Verissimo há muito tempo recomenda: a gramática deveria levar uma surra diária, para aprender quem é que manda.