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Ela apareceu numa tarde de domingo. O homem, ao ouvir a campainha, olhou pela fresta da cortina e pensou quem poderia ser aquela garota cujo rosto, porém, lhe parecia familiar. Estava pedindo ajuda à memória quando reparou na mala dela. Que estranho, aquilo. Então se lembrou. Não, não era possível. Mas era. Que maluca! A melhor solução seria não atender.

A garota tocou novamente. Ele sentiu vontade de estar morto. Ah, que bom seria. Morto, bem mortinho. Quando a campainha soou pela terceira vez, ele, em pânico, abriu a porta e andou até o portão. Era um dia de inverno, mas ele estava suando.

A garota sorriu e segurou a mala como se fosse um troféu de campeã.

“Oi”, ela cumprimentou, “eu resolvi vir.”

“É, estou vendo.”

Depois  dessa frase estúpida, ele fez uma pergunta tola:

“Você  veio me visitar?”

“Eu vim morar com você. Você disse que eu podia vir, lembra?”

O homem pensou de novo como seria bom estar morto. Precisava dizer alguma coisa, e o que disse foi:

“Mas isso foi no ano passado.”

“Foi. Mas, como você nunca mais mandou mensagem, eu achei que estava tudo certo. Está, não é?”

“Você também não mandou mais nenhuma mensagem.  Olhe, a coisa não…”, ele começou a dizer, e nesse momento surgiu atrás dele uma mulher de olhos sonolentos:

“O que é, amor?”

Ele olhou para ela, para a garota, suspirou e viu que só lhe restava apresentar uma à outra. Era o que lhe cabia, já que continuava inconvenientemente vivo. Apontou a garota:

“Amor, esta é a Lara, uma amiga.”

Depois, apontando a mulher, disse:

“Lara, esta é a Vilma, minha mu…”

Antes que ele acabasse a frase, a garota ergueu um pouco mais a mala e, estendendo a outra mão, sorriu:

“Prazer.”