caranguejo

Ela lembra do câmbio caranguejo. O pai tinha um bigode. Nunca soube como aquele caranguejo tinha ido parar lá. O pai pintava o bigode de preto. E se o caranguejo do câmbio precisasse de ar? Às vezes, o pai alisava o bigode com um pente que trazia no bolso da camisa. Quando o pai descia do Fusca, ela conversava com o câmbio caranguejo. O pai sempre descia do Fusca com um envelope amarelo embaixo do braço. Ela se sentia muito sozinha quando o pai batia a porta do carro e saia andando com o envelope amarelo. Talvez por isso conversasse tanto com o caranguejo.

Teve a vez que o pai saiu com um envelope amarelo e não voltou. No começo, ela não sentiu o tempo passar. Ouviu fogos de artificio. Fez mil perguntas ao caranguejo do câmbio antes de notar que já havia escurecido. Sabe-se lá com que força, quebrou o vidro que envolvia o câmbio caranguejo. Ele se esgueirou para fora do carro. Acho que por uma fresta do assoalho – mas isso nunca ficou claro.

Ela lembra da polícia batendo no vidro do carro. Um homem fardado pegando ela no colo e o carro sendo minuciosamente revistado. A mãe chegou depois – acompanhada pelos tios e por um advogado. A mãe chorava muito. O carro ficou lá. A polícia fez um monte de perguntas. Ela falou dos fogos de artifício. Os policiais se entreolharam em silêncio.

O carro reapareceria na casa dela duas semanas depois. Limpo e devassado.

Ela sonhava mais com o câmbio caranguejo do que com o pai.

Os tios ainda procuravam. A mãe era forte, mas vivia calada.

Um dia viu a foto do pai em uma revista. Perguntou pra mãe porque tinha aquela palavra vermelha em cima da foto do pai.

A mãe não respondeu.

E foi isso…

A menina cresceu. Depois dos 40, ela sabe, não eram  fogos de artifício.

Outra ossada clandestina havia sido descoberta no cemitério de Perus. Essas coisas demoram. Passaram-se muitos anos. Pode ser que ainda não seja dessa vez. Aliás, faz anos que não é dessa vez. E quem ainda quer saber?

Ela lê na internet um comentário raivoso sobre gente como o pai dela.

Ela vai para a praia. Gosta de sentar naquela faixa onde as ondas chegam na humildade, rastejantes e derramadas em um último suspiro.

O câmbio caranguejo se aproxima, encosta em uma das mãos dela. Com ele, vem a dona carangueja e dois lindos caranguejinhos.

Ela sorri.

Existe vida ainda.