Quando ela entrou, os caras do balcão do bar sonharam ser mais do que os caras do balcão do bar. Encolheram suas barrigas como se um sargento passasse a tropa em revista e pediram uma bebida menos barata, em um copo mais limpo.

Quando ela entrou, os caras sonharam um salão melhor, uma luz mais clara, uma música menos tola. Quiseram saber dançar ou pelo menos enganar melhor e no ritmo certo.

Quando ela entrou, os caras interromperam a rodada do futebol e sonharam entender o fim daquele filme francês que ninguém naquele bar havia entendido. Quiseram saber outra língua e ter histórias de viagem pra contar.

Quando ela entrou, os caras sentiram a aspereza do próprio rosto ferir a pele de alguém que eles nunca haveriam de beijar. Viram suas calças largas e sem corte lambendo o chão sujo do lugar.

Quando ela entrou, os caras do balcão do bar sentiram o peso de anos de sexo protocolar, de violência disfarçada de amor, segurança e autoconfiança.

Quando ela entrou, os caras sentiram uma espécie de calafrio, um medo daquilo que nunca puderam conhecer. Teve um que precisou se escorar para não perder o equilíbrio. Teve um que enfiou a cara numa revista boba pra disfarçar os espasmos do rosto. Teve um que se tivesse um jeito, pode apostar, teria preferido nascer de novo.

Quando ela entrou, os caras do balcão do bar quiseram tomar veneno.

Quando ela entrou, os caras do balcão do bar entenderam que a vida é uma cela minúscula, uma solitária onde o sol só aparece muito de vez em quando, por teimosia, por uma fresta teimosa.

Quando ela entrou, os caras do balcão do bar lembraram que amanhã ainda seria um dia de semana. Eles olharam para seus relógios de pulso, pediram a conta e pagaram em silêncio.

Sem reclamar.

Eram fantasmas.

Quando ela entrou, permaneceu ali e ocupou todos os lugares.