Andava tão só que o tênis desamarrado era um truque para chamar atenção de estranhos. Perguntava que horas eram mesmo sem nenhum interesse pelo tempo.  Usava pó de mico para provocar espirro e ouvir “saúde”. Dormia de TV ligada para ter companhia. Ansiava pelo dia em que seu cachorro respondesse suas perguntas retóricas. Um dia ele respondeu, mas o dono não conseguiu ouvir porque o liquidificador fazia um barulho insuportável.

Suco Detox pronto.

Jogava paciência no computador. Dava like em seus posts no Face. Preparava seus próprios negronis. Assistia temporadas inteiras de Master Of None em um dia. Inventou de cortar o próprio cabelo – e “só uma pontinha” virou um caminho de rato. No final, achou melhor raspar.

Viu o vídeo da Sinead O’Connor chorando no Youtube e quis abraçá-la.  Nothing Compares 2 U. Ouviu uma playlist tola no Spotify e foi cantar no chuveiro para apreciar a acústica do espaço.

Foi ao espaço. Pescou estrelas mudas para o jantar.

Quis fazer as palavras cruzadas do jornal velho. Quis responder o quiz da televisão – que prometia um prêmio se você ficasse pendurado no telefone por uma hora. Discutia futebol com apresentadores alucinados. Ligou para o serviço de telemarketing da NET só para reclamar do pacote e exigir um canal coreano que nunca iria assistir.

Nem o elenco para o sexo solitário havia sido escalado.

Mesa posta para dois – por pura distração.

Estava sozinho.

Abriu o Tinder.  Não encontrou a Scarlett Johansson. Nothing Compares 2 U.

Foi ler um livro, mas sem os óculos, teve que imaginar uma história completamente nova.