O pingado de manhã é fundamental, hábito adquirido por herança ancestral, dinossáurica, vidas passadas em outras galáxias.

O pingado de manhã, o primeiro ‘bom dia’ e ‘por favor’, a espiada na TV ligada, um atentado, um político envolvido em corrupção, o dólar, a conta – e o segundo ‘por favor’.

O pingado de manhã, antes do primeiro ônibus, e do cobrador que reclama por ter que trocar uma nota de dez, e do lugar que balança depois do pneu se afundar num buraco, e do baço quase sair pela boca.

O pingado da manhã já é um passado distante, quase esmaecido, quando descubro que esqueci o crachá, que preciso pegar um provisório, assinar um papel, prometer que não vou esquecer mais e avisar se, por acaso, não encontrá-lo em algum canto de casa.

Saudade do pingado da manhã, quando o dia ainda era uma incógnita, ou ao menos ainda era possível se enganar com a expectativa de algum acontecimento extraordinário, alguma loteria.

Penso em outro pingado, em um recomeço, talvez depois do almoço, se tiver tempo, depois de entregar o trabalho que já está atrasado, que também precisa de uma revisão mais detalhada – antes de subir para aprovação do Conselho.

Tarde demais para um pingado, quando são apontados seis ou sete erros que devem ser corrigidos antes de sexta-feira, quando eu percebo que vou precisar esticar umas duas horas para entregar aquilo que foi prometido – não por mim, mas por alguém que paga o meu salário.

No ônibus da volta, sonho com o pingado, não sei se é certo, acho que é um vício, melhor resistir e evitar problemas estomacais.

Entro em casa, duas contas foram passadas por debaixo da porta.

Amanhã eu pago, depois do pingado.