glitter

Dois dias depois do último bloquinho ele ainda tinha glitter no rosto. Nem o banho, nem a bucha e muito menos o tutorial do Youtube serviram para remover aquele brilho em sua cara.

Foi trabalhar do jeito que deu. Sentou-se na sua mesa, atendeu uns telefonemas e entregou um relatório que estava atrasado desde antes do carnaval. Depois, duas reuniões longas e inconclusivas sobre um assunto do qual ele não tinha o menor interesse.

Cansado, foi ao banheiro para jogar água no rosto e tentar acordar. Ao se olhar no espelho, reviu o invencível glitter.

Talvez ele só saísse depois de uma sessão de exorcismo ou descarrego.

Ao chegar em casa procurou, nos bolsos de uma bermuda, o telefone da garota que havia conversado em um dos bloquinhos do último sábado.

“Esse número de telefone não existe, favor consultar a…”

Com o barulho da bateria deve ter ouvido errado, trocado algum número. Vai saber se o 3 não era 6? Tentou fazer essa alteração, mas não funcionou. Caiu em uma papelaria de bairro. Ou seja, ela só estava sendo simpática.

Tem horas que a cultura atrapalha. Tinha que ter beijado. Tentado. Mas tem horas que a cultura atrapalha. Será que ela estava mesmo querendo ser simpática?

Ainda com isso na cabeça, assistiu um pouco de TV, comeu pipoca doce e tentou dormir. O glitter ainda estava lá. Agora, reparava, era quase como se suas lágrimas estivessem se cristalizado. Achou a imagem cafona e decidiu não dividi-la com ninguém. Enfim, dormiu e sonhou com uma tartaruga amarela no banco de trás do seu carro.

Acordou atrasado.

Três dias depois do último bloquinho ele ainda tinha glitter no rosto. Nem o banho, nem a bucha e muito menos o tutorial do Youtube serviram para remover aquele brilho em sua cara.

Foi trabalhar do jeito que deu. Estava atrasado e precisou acelerar. Tinha que sentar-se em sua mesa, de frente para o seu computador, fazer uns telefonemas e entregar um relatório que estava atrasado desde antes do carnaval. Depois, ainda tinha duas reuniões longas e, provavelmente, inconclusivas sobre um assunto do qual ele não tinha o menor interesse.

Na marginal, pelo retrovisor do carro, viu uma tartaruga amarela no banco de trás. Desconcentrou-se, perdeu o controle e capotou.

Ainda tinha Glitter no rosto dele quando os legistas deram o caso por encerrado.

O maquiador da funerária tentou mas não conseguiu esconder o glitter que havia no rosto do morto.

O detalhe, apesar da tristeza geral, foi muito comentado durante o velório. “Ele era um sujeito muito alegre”, disse um parente distante.

Quatro dias depois do próprio enterro ele ainda tinha glitter na alma.

E a esperança de ressuscitar no próximo carnaval.