restaurante

O salão está lotado. Os pratos saem em intervalos regulares de 5 minutos. Um pequeno engano em relação ao ponto de um bife não teve maiores consequências. O prato foi devolvido e, prontamente, trocado. Um simpático casal de aposentados ocupa a mesa do canto. Um jovem bancário faz sua refeição sozinho. Duas ou três famílias também parecem se divertir. Amigas falam de uma viagem marcada. Namorados ensaiam um papo que, inevitavelmente, irá desaguar em um final de romance. Três colegas de trabalho discutem futebol.

Um dos cozinheiros decide adicionar veneno ao tempero.

Nada pessoal contra nenhum dos clientes. Ele, simplesmente, tratou aquilo como um experimento filosófico. Queria ver demostrada, ali no salão do restaurante, a teoria da aleatoriedade. Bastaria, para que sua tese obtivesse êxito, a presença de três elementos: um veneno, um prato e um cliente. Ok, o prato xis poderia ser dividido e, consequentemente, mais de uma pessoa sofreria as consequências daquela experiência. Não seria algo desejável, mas também poderia ser descrito como parte indissociável da tal aleatoriedade da vida.

Duas crianças brincavam de pega-pega por entre as mesas. Os pais chamavam-nas com um tom amistoso de desaprovação. O perigo mais iminente era que uma delas batesse com a cabeça em uma das quinas. “Vem comer”, gritou a mãe. “Vem que depois tem sobremesa”, completou o pai.

Vendo a criançada que corria, o casal de aposentados lembrou dos próprios filhos – que hoje eram homens feitos. Quanto tempo eles não ligam? Será que eles vem para o Natal? Vontade de ligar eles têm, mas não querem incomodar. Os meninos são muito ocupados.

O bancário sozinho ensaia baixinho um discurso para pedir aumento. Há três anos sem nenhum tipo de promoção, ele se sente no direito de questionar o seu chefe direto. Uns 20% de aumento. No mínimo. O importante é que ele consiga ser claro e direto. Money.

Na mesa das meninas, a conversa gira em torno da primeira viagem que as três irão fazer juntas no réveillon. Uma delas merece férias porque teve um ano de trabalho muito intenso; outra, a loira, acabou de passar por uma separação traumática; a careca, poxa, essa sobreviveu a uma doença grave e quer fazer dessa viagem um recomeço.

Os colegas de trabalho que discutiam futebol quase perderam a compostura por conta de um gol impedido na rodada do final de semana.

O casal demorou pra puxar assunto. Ela estava ali com um propósito: terminar o namoro. Ele, pressentindo o que viria depois do “a gente precisa conversar” tentou ganhar tempo. Fez comentários banais sobre um episódio de Black Mirror e elogiou os croquetes de carne. Ela olhou fixo nos olhos dele e pediu que ele parasse. “Me escuta”, disse.

O cozinheiro espiou de dentro da cozinha. O prato já havia sido servido. Agora era observar como aleatoriamente alguém morreria naquele restaurante. No fundo, ele se sentia um artista, uma espécie de poeta carnal, um tipo que merecia receber um Nobel por transformar em arte o caos da vida e da morte.

Um choro de criança irrompeu o salão. Os pais sempre têm razão. Aquela correria entre as mesas terminaria com alguma criança machucada. O choro das crianças fez com que duas famílias se mobilizassem para prestar os primeiros socorros.

O telefone da aposentada tocou. Algo incomum, uma ligação de um dos meninos. Disse que estava com saudade. E o celular passou para o pai que quase chorou de emoção. Ficaram tão felizes com a lembrança que decidiram pedir duas tacinhas de vinho branco.

Na mesa das garotas, a lembrança da doença causou uma honesta comoção entre amigas. Duas delas se levantaram e foram dar um abraço naquela que permaneceu sentada, a careca.

Da mesa em que os colegas de trabalho quase brigaram por conta de futebol, surpresa, saíram dois ou três comentários machistas sobre as garotas que se abraçavam.

Depois de falar tudo o que estava preso na garganta, a garota que estava lá para terminar o namoro pediu licença e foi ao banheiro. Disse que não estava se sentindo bem, mas, na verdade, queria apenas um lugar para respirar e chorar escondida.

Ela se levantou. O agora ex-namorado tentou dizer alguma coisa. Ela fez que não ouviu e seguiu andando. Ao passar pela mesa onde o bancário almoçava sozinho notou, espantada, que o engravatado solitário estava com a cabeça mergulhada em seu próprio prato.