Sempre fui mais ligado ao Papai Noel do que a Jesus. Isso é uma coisa ruim de se dizer – e depois de publicado encerram minhas chances de disputar qualquer eleição.
Quando eu era criança (e lá se vão mais de 30 anos), o Natal começava com as contagens regressivas do SBT. Tinha uma propaganda que me avisava: “faltam tantos dias para o Natal…” Era um truque comercial que nos enchia de ansiedade e que transformava o dezembro em uma longa estrada. No meio do caminho, ainda exibiam Rudolph – A Rena do Nariz Vermelho.
Logo chegava o dia da minha mãe montar a árvore. A gente pegava uma caixa, que ficava em uma prateleira alta do armário, e realizava a contagem das bolas que haviam quebrado. Invariavelmente, comprávamos algum enfeite novo.
O presépio era mais simples, uma manjedoura, uma ovelha e acho que Maria e José. Como já disse, nunca consegui me conectar de verdade com aquela cena. Tinha algo de angustiante ali. Ainda tem, acho.
Eu era uma criança consumista. Gostava de ver os presentes debaixo da árvore. O caráter religioso eu deixava para os mais velhos.
A mesa foi sempre farta. Casquinha de siri e pernil ainda me dão água na boca. Nunca teve muita uva passa no arroz. E uma boa lembrança é a do meu pai me ajudando com as nozes (tirando as cascas).
Teve ano em que minha irmã e prima se apresentaram dançando para a família (músicas da Xuxa). Eu mesmo fiz uns shows de mágica durante alguns natais.
Meu pai e minha avó se revezavam no papel de interpretar Papai Noel. Não ganhariam o Oscar, mas era bonito de se ver. Mesmo depois de superar a crença em Noel, achava divertido ver os dois naquele esforço de ludibriar os novinhos da família. De fundo, o disco da Simone ou do Padre Marcelo.
Ganhava meias da avó. Às vezes, um dinheirinho. Já ganhei bicicleta, videogame e todos os clássicos dos anos 80. Depois de velho, claro, bateu aquela culpa bem classe média. Deve ter sido um sacrifício familiar manter aquele padrão natalino por tantos anos. Fora isso, tinha toda a vida que eu ainda não conhecia. As crianças sem Natal, os meninos sem bicicleta, videogame ou casquinha de siri.
Não tem jeito, a vida real é mesmo um c*.
E eu ainda curto me iludir um pouco.