Na quadra 8, terreno 25, Pedro lamentou não ter mais cintura pra tanta vontade de sair dançado. Na quadra 12, terreno 48, Ana tirou o pó e a areia do peito e foi acordar a vizinha. Na quadra 12, terreno 49, Luiza disse que não queria levantar – e que tinha sido difícil achar uma posição confortável pra descansar. Na quadra 15, terreno 34, Astolfo puxou uma marchinha do tempo que ele conheceu antonieta, que estava na mesma quadra e terreno.  Na quadra 27, terreno 52, tinha uma criança que nunca brincou o carnaval. Os moradores da mesma quadra (e de outras) pegaram o menino no colo e se incumbiram da tarefa de fazer com que ele conhecesse a folia. Da quadra 27, terreno 41, saiu Amália batendo palmas para que outros ajudassem. Das flores postas na quadra 28, terreno 36, Amália improvisou um colar. Não era uma fantasia brilhante, mas o suficiente para não deixar o menino Jonas (esse era o nome dele) deslocado ou tão diferente das outras crianças. E então, com todo cuidado que se deve ter com quem já é mais osso do que pele, Jonas  foi erguido até a parte mais acessível do muro que dividia o a rua Horácio Lane e o cemitério São Paulo.

Jonas viu o bloco do Ó passar. Bateu palmas instintivas. As órbitas ocas do rosto do menino vidravam de atenção. Ele gostou da espuma que as crianças atiravam umas nas outras. Parecia com uma coisa que ele nunca iria conhecer. Do outro lado, do lado do bloco, só as crianças muito novinhas conseguiam ver o menino do cemitério. Algumas corriam até o muro, espirravam a tal espuma na direção dele, e logo eram retiradas pelos pais.

As fantasias de super-homem, de pirata, de caveira. A fantasia de caveira era familiar. O menino experimentava a felicidade. Os moradores de  todas as quadras se emocionaram, daquele jeito que só quem já morreu sabe como é.

O bloco passou. O menino acompanhou até onde podia.

Os coveiros sentiram na alma que era preciso ligar o rádio. Último volume na estação que só toca marchinhas durante o carnaval.

A festa continuou. O menino no chão, brincando do jeito que podia aquele cordão do além vida.