A saudade da lata de ervilhas, seis meses de geladeira, comprada no dia em que você foi embora. A saudade da garrafa vazia, potencial de vaso de flor, esquecida no fundo do armário. A saudade da camisa furada, daquele domingo de futebol, pênalti que o  juiz não deu. A saudade da xícara trincada, do gosto do café na sua boca, e daquele beijo torrado. A saudade da moeda no vão do sofá da sala, dos achados e perdidos da nossa casa. A saudade do livro emprestado e que nunca mais voltou. A saudade do barulho do taco solto no corredor, principalmente pela manhã, quando você saia para trabalhar. A saudade do controle remotos sem pilha que nunca foi substituído. A saudade da forminha de gelo, que quase não servia. A saudade da caixa de sapatos, cheia de fotografias antigas. A saudade dos discos riscados, bem na faixa mais querida. A saudade da máquina de escrever, sem o Q, e com a fita seca, sem tinta. A saudade do pôster – que nunca ganhou uma moldura –  e do furo na parede que ficou por lá, como um tiro solitário. A saudade do calendário de 1996. A saudade da agenda de papel, com telefones de gente que já morreu ou fugiu do País. A saudade dos comprovantes de residência, das residências que já viraram estacionamento ou igreja. A saudade do álbum de figurinhas incompleto. A saudade do liquidificador que engasgou. A saudade do copo de requeijão – que foi o único que você não quebrou. A saudade da colher de chá, da colher de sopa e das facas sem ponta. A saudade das canetas sem tampa (ou mordidas na ponta). A saudade das formigas que, em fila, marchavam sérias pela borda da pia. A saudade do batom que você perdeu ou esqueceu em outra parada. A saudade dos bilhetes de metrô amassados – principalmente dos múltiplos de dois. A saudade das miudezas, das delicadezas e de ver você escolhendo feijão. A saudade das pastas de dente quase vazias. A saudade das fitas de VHS que ficavam entulhando a casa. A saudade da carta escrita, mas nunca entregue. A saudade de quando ainda se escrevia em papel de pão. A saudade dos fantasmas que me visitavam aos sábados. A saudade de quando se fazia das tripas um coração.