O Smartphone na mão do ladrão. O pecado da distração criou uma oportunidade – o trem e o celular só passam uma vez.
Os gurus da autoajuda e os homens de negócio bem sucedidos aprovariam a ação do rapaz que corre com meu celular.
Baita gestor.
E com o aparelho lá se vão meus segredos, confissões, preconceitos, textões, nudes, contatinhos e contatões.
Algumas paixões bestas, umas amizades inconclusas e compromissos que eu daria um jeito de burlar.
Sou de novo o homem primitivo, o índio, alguém que grita: “Minha alma, levaram a minha alma!”
Tem tanta vida no Smartphone que quando o ladrão vira a esquina eu me deixo levar. Sou alguém que foi embora, um homenzinho resumido dentro da memória do celular.
Eu caibo, você cabe, nós cabemos todos lá.
Sou um homenzinho abraçado aos meus defeitos e aplicativos. Um Homenzinho que sozinho dentro do iPhone vê a vida de cabeça baixa, vê de rabo de olho o menino que troca o aparelho por duas pedras, o homem que revende o aparelho para uma lojinha do centro por R$ 50…
Eis que sou desbloqueado, posto nu para exibição e execução pública. O dono da lojinha quebra minhas barreiras, zomba da minha senha, ri das minhas coisas, mas se dá ao trabalho de apagá-las e me revender por R$200.
Nem faço B.O.
Ouço Chico Buarque cantar: “Ô, pedaço de mim, o metade exilada (amputada) de mim, leva os teus sinais…”