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Foi uma colega de trabalho quem disse. Depois, ela mesmo viu a notícia no Face. Ficou branca. As pernas tremeram e ela ligou pra casa. O telefone tocou uma, duas, três, dez vezes. Ninguém atendeu. Ela pegou a bolsa e saiu correndo. Não falou com ninguém. Dirigiu feito uma louca. No rádio do carro, ouviu a notícia: a youtuber tinha feito aquilo na frente de todo mundo.

No caminho, fez outras ligações. Ninguém quis atender a porcaria do celular. Nem a filha. O Face da menina também estava offline. Quase bateu o carro por duas vezes. Pensou no pior. Chorou. Gritou dentro do carro. Rezou. Rezou uma mistura de Pai Nosso com Ave Maria.

Não estacionou o carro. Largou o veículo na porta do prédio e subiu. Antes, deu boa tarde para o porteiro – que fez um comentário inaudível sobre a porta aberta do carro. Já no saguão, apertou o botão do elevador umas 12 vezes. Chamou também o ‘de serviço’ (que estava quebrado).

Quando o elevador chegou, precisou esperar um idoso sair (ele usava um andador e isso, na cabeça dela, levou uma eternidade).  O elevador chegou ao andar dela em 22 segundos. Ela saiu esbaforida e não conseguia encontrar a chave na bolsa (demorou mais procurando a chave na bolso do que dentro do elevador). A encontrar a chave, tremia tanto que não conseguia enfiá-la no buraco da fechadura.

Quando conseguiu, correu para o quarto da filha.  A porta estava fechada…

… mas não trancada.

Ela abriu e viu a filha sentada na frente do computador.

A menina estava em silêncio.

A mãe deu um abraço na filha. Um abraço de mãe desesperada.

“Você viu?” – perguntou a mãe.

A filha fez que sim com a cabeça e começou a chorar.

Mais ou menos 15 minutos depois, mãe e filha saíram para tomar um sorvete. A menina, que sempre escolheu morango, dessa vez preferiu flocos. A mãe achou estranho.  Mas não quis saber o motivo. Pediu uma bola de limão e sentou-se ao lado da filha.

Fez uma selfie.

Postou no Insta.

Teve 52 curtidas.

Saíram de mãos dadas. Ela insistiu em saber se a filha estava bem. A menina só fez que sim com a cabeça.

“Quer ir ao cinema?” – perguntou a mãe.

“Não” – respondeu seco a garota.

No dia seguinte, não deixou a filha entrar no computador ou usar o celular.

Não era um castigo. Era só um jeito da menina não ficar lendo as notícias. Pensou em procurar uma terapeuta infantil. Uma amiga tinha levado o filho em uma e parece que deu super certo.

Perguntou por Whats.

Recebeu um emoticom de ‘joinha’.

Seguido por $$$.

Respondeu hahaha.

Estava disposta a pagar.

A filha parecia quieta demais. Talvez estivesse triste por ficar sem computador ou celular naquele dia. Melhor era conversar com ela. Sair para passear. Fazer compras. Desanuviar daquilo tudo.

Entrou no quarto da filha. Ela não estava lá.

A janela estava aberta.

O interfone tocou.