A fila de formigas na pia tem uma organização clássica. Uma atrás da outra feito crianças do primário. Anita nunca se sentiu deprimida. Anita é até pra cima. Mas aquela fila de formigas… Anita nunca teve disciplina e, talvez por isso, as coisas tenham dado uma estacionada em sua vida.

Na idade dela, as amigas dela, já viviam em outro esquema, já eram menos amadoras na arte da sobrevivência. Anita sonhou com a rotina das formigas e pensou que talvez fosse a hora de arrumar as gavetas.

Quis a estabilidade das formigas.

Sem manual de instruções, Anita foi intuitiva. O que é preciso para ser uma pessoa mais sólida? Um trabalho melhor, um relacionamento mais sério, uma frequência relevante na academia, uma pós-graduação com alguma utilidade prática e visitas regulares aos pais no interior de Minas.

Anita tinha muito o que pensar. Deixou a fila de formigas pra trás e decidiu tomar um pouco de ar. A noite estava fria, mas era tudo o que ela precisava naquele momento.

Na rua, viu a fila de carros na frente de uma casa noturna; viu a aglomeração de moradores atrás de um prato de sopa; viu a turma que descia de skate a ladeira ingrime; viu os policiais que revistavam torcedores de futebol; viu mesas de bar carregadas de chope; viu uma manifestação contra imigrantes sírios e viu um homem se atirando do viaduto.

Voltou pra casa. Não tinha nada muito específico na cabeça. Pensou em tomar um daqueles remédios que suas amigas tomavam também; pensou em arrumar uma briga na internet para desanuviar um pouco; pensou em tomar o restinho de uísque que havia sobrado da noite anterior; pensou em pedir comida. E pediu.

Antes que o delivery chegasse, Anita voltou à cozinha. A fila de formigas continuava lá, sólida, correta. Era uma fila patriota, era uma fila estável e equilibrada, eram formigas irritantemente bem sucedidas, eram engenheiras, advogadas, médicas ou artistas que sabiam ganhar dinheiro com a própria arte.

Anita levantou o dedinho e teve ganas de esmagar uma por uma. Refletiu sobre aquele genocídio e chegou a conclusão de que estava no seu direito soberano. Com o dedo indicador, foi esmagando, vagarosamente, formiga por formiga. A cada pressão do dedão, Anita sentia uma espécie de orgasmo nunca antes experimentado. Ela teria acabado com todas elas se a campainha não tivesse tocado, se a pizza não estivesse quentinha em sua porta.

Ao abrir a porta, notou que o entregador era uma formiga gigante. O formigão foi entrando sem pedir licença, deixou a pizza em cima da mesa da cozinha e notou o que havia acontecido com suas semelhantes.

Chorou feito uma criança.

Anita disse que aquilo tinha sido um acidente, que ela havia perdido a cabeça e que…

O formigão olhou com raiva e gritou alguma coisa em uma língua desconhecida. Aquilo soou como uma maldição. Deve ter sido.

Antes, o formigão tivesse feito algo físico e definitivo.

Anita, lembrou do prazer que sentiu em esmagar formigas.

No dia seguinte, Anita acordou e continuou sentindo no peito que estava sendo esmagada pela vida, feito uma formiguinha tola e sem propósito.

Mais tarde pensaria no que fazer com o corpo do entregador de pizza.