O cachorro sente falta dela. Principalmente pela manhã. Era ela quem levantava primeiro, fazia carinho, enchia o vasilhame de água e levava para passear.

Eu tento fazer a mesma coisa. Acordo um pouco mais tarde, é verdade, mas cumpro todo o ritual: faço carinho, encho o vasilhame e levo para passear.

O cachorro sente falta dela. Sai meio emburrado. Não balança o rabo com aquela mesma alegria  – e escolhe os postes mais deprimentes para mijar. Se um carro da cor do carro dela passa, ele quer correr atrás. Puxa a coleira e me faz correr também. Mas é só outro carro vermelho. E as orelhas dele murcham devagar.

Quer voltar pra casa tão logo as questões de pura fisiologia sejam resolvidas. E volta.

Ração ele não liga. Dou frango com a arroz. Não come mais o ossinho. Acho que está perdendo peso. Preciso marcar veterinário. Ligo pra ela pra pegar o telefone dele. Ela não está em casa. Não deixo recado. Deve ter o número desse veterinário em algum papel pendurado na porta da geladeira.

O cachorro sente falta dela. Cheira cada pedaço de chão que ela pisou. Sobe no sofá para se acomodar no lado que era dela. Lança um olhar para porta cada vez que ouve algum barulho no corredor.

Vive a expectativa canina pela volta dela.

Ontem me mordeu. Nunca tinha feito isso antes. Mas me mordeu do nada. Chegou perto. Fez cara de quem está pedindo carinho e, quando eu encostei, me mordeu. Pegou de raspão. Mordeu e foi para a cozinha. Coloquei a mão esquerda embaixo da torneira. Lavei em água corrente.

Não ouvi choro nenhum. O cachorro que sente falta dela foi beber água e deixar a raiva passar.

Corri para a cozinha e comecei a discutir com o cão: “O que foi? O que foi? Eu não tenho culpa! Você queria que eu fizesse o quê?”.

O cachorro que sente falta dela se escondeu embaixo da pia. Demorou umas duas horas para sair de lá. Devagar, pata por pata, voltou para sala e deitou-se perto da minha perna. Emburrado.  Fiz um carinho na cabeça dele e peguei no sono também.

Tive um sonho estranho.

Eu era o cão.

Mas isso foi ontem.

Hoje ele olha pra porta e espera.

Meu celular toca. Ela pergunta se fui eu quem ligou. Peço o número do veterinário. Ela sabe de cabeça. Sinto ciúme. Anoto no verso de uma conta de luz. Ela pergunta do cachorro. Ele levanta as orelhas. Digo que está bem, mas emagreceu um pouco. Ela parece preocupada. Repito que não é nada.

Ela pergunta se pode pegá-lo no próximo final de semana. Demoro pra responder.

-Posso?

-Mas isso não foi o combinado.

-Não custa nada.

-Não sei.

-Deixa de ser babaca.

-Tudo bem.

Combinamos um horário. A chave vai ficar com o porteiro. Eu estarei fora. Almoçando ou bebendo.

O cachorro que sente falta dela vai gostar da surpresa.

No sábado de manhã, vou com ele no Pet Shop. Banho e tosa higiênica.

O legal é que colocam uma gravatinha nele.

Volto com o cachorro que sente falta dela pra casa.

Faço carinho, encho o vasilhame de água e ração.

Digo algo como “o papai já volta, fica bonzinho” e bato a porta.

Daqui uma hora ou duas ela vai chegar.

E o cachorro que sente falta dela vai abanar o rabinho de felicidade.