noel

Papai Noel de shopping, jornada média de 8 horas diárias (com uma hora de almoço) e um surpreendente salário de R$ 9 mil – se o shopping  for localizados em uma área nobre e, principalmente, se a barba do Noel for original.

A barba branca original é o toque de midas no currículo de um Noel. Sem ela, o salário cai pela metade e a chance de ocupar um trono rentável despenca consideravelmente.

Jonas é um Noel de barba de algodão, faz as mesmas 8 horas diárias (com uma hora de almoço), trabalha em um centro de comércio popular e tira R$ 3.500 em dezembro.

Na semana do natal, distribui “ho ho hos” como quem bate carimbos em uma repartição pública. Se a criança exige, faz perguntas genéricas sobre desempenho escolar e comportamento. Evita encaminhar a conversa para o terreno caro e cruel dos presentes desejados. Sabe que a maioria dos pais que frequentam aquele centro comercial não têm condições de atender as extravagâncias infantis. Ou seja, faz o seu trabalho sem muito amor, mas com responsabilidade.

Uma semana antes do natal, enquanto desempenhava o seu papel, avistou uma mulher conhecida na fila do Noel. Ela estava com uma menininha no colo – provavelmente a neta dela. Ele reconheceria aquela mulher em qualquer circunstância, em qualquer tempo ou encarnação.

Luciana. Luciana e ponto. Aos 20 anos, um demônio maravilhoso. Uma Sophia Loren saindo do mar. Peça única. A turma boquiaberta, galetos jovens embasbacados, corações enterrados na areia.

Eram os anos 60. Férias na praia. A vida inteira pela frente. Uma vida que se desenhava aventureira. Solar. Sem barbas de algodão. JUVENTUDE. Como se parte de um ponto tão promissor para desaguar em… “ho ho ho”?

A fila anda e Luciana se aproxima com a netinha. Jonas sente a barriga de almofadas revirar.

Naquela praia, Luciana pediu um cigarro. Sentou-se ao lado de Jonas e disse algo inaudível sobre o sol. O beijo aconteceria dois dias depois – durante uma festa. A boca dela era o assunto inaudível do sol.

Amor de praia. Duas semanas de uma vida inteira. O sol na cabeça. O verão no verão da vida deles. Não se prometeram nada. Quem precisa de promessas aos 20 e poucos anos?

Luciana trouxe a netinha para conversar com o Noel do centro de comércio popular.

Na última semana de praia, a casa de Luciana foi abandonada. Pouca coisa foi deixada pra trás. A polícia estava desnorteada. O que circulou na ilha era de que os pais dela eram procurados. Gente perigosa. Vermelhas. Mais vermelhas do que o Papai Noel no comercial de Coca-Cola.

Jonas nunca entendeu nada da política.

A netinha de Luciana sentou-se no colo de Jonas. Luciana parecia uma mulher simpática. A menina puxou a barba de algodão de Jonas. A verdade descortinou-se por alguns instantes. Luciana não percebeu. Ho ho ho disfarçou Jonas.

A menina começou a chorar. Aquele não era o Papai Noel de verdade. Luciana se desculpou, pegou a menina pelo braço e saiu.