“Vou contar uma história”. (autor anônimo)

O homem é um animal que conta histórias. Das narrativas mitológicas à História como ciência, dos contos de fada na hora de dormir às complexas tramas nos seriados políticos, vivemos cercados delas. As notícias de jornal, os processos legais, os prontuários médicos, a conversa no jantar, os posts nas mídias sociais, tudo só faz sentido quando é contado como uma história. Especula-se muito quais seriam as razões para tanto – provavelmente a característica sequencial dos eventos que nos cercam e a incrível habilidade do cérebro em identificar (e criar) padrões está por trás disso. Mas seja qual for a causa, a verdade é que quando existe um estrutura dramatúrgica, um arco narrativo, nossa atenção é captada com mais facilidade, memorizamos melhor e somos mais afetados pelo que vemos.

Uma pesquisa mostrou que quando voluntários assistiam animações mostrando dois personagens (um pai e um filho pequeno) ou passeando num zoológico (sem uma história), ou num enredo emocional (com estrutura narrativa) eles reagiam de forma muito diferente, psicológica e biologicamente. Quando eram envolvidos pela trama os voluntários exibiam mais empatia, aumentavam o nível oxitocina (neurotransmissor ligado à empatia) e a atividade cerebral em áreas ligada à essa emoção. Esses efeitos tinham implicações práticas claras: todos recebiam uma verba para participar da pesquisa, mas quando lhes era oferecida a chance de doar o dinheiro, os que tinham visto a história (e reagido mais, portanto), tinham muito mais chance de fazer a caridade.

Pensei em tudo isso conforme lia o perturbador livro Insana: meu mês de loucura, da jornalista Susannah Cahalan (editora Belas Letras). Literatura e loucura sempre foram parceiros profícuos, e Cahalan engrossa as fileiras dos escritores que de alguma forma perderam a razão mas recuperaram-na para nos contar a história. No seu caso, um diagnóstico misterioso progressivamente vai roubando-a de si mesma, até não deixar senão vestígios da competente e entusiasmada jornalista encarcerada num corpo mal-funcionante. Assim, para escrever a autobiografia de um surto – após se recuperar – ela não pode confiar em suas memórias. Põe-se então a trabalhar com o que sabe, e entrevistas familiares, namorado, colegas e médicos para escrever essa reportagem. Compõe com isso várias histórias: a da sua doença, a de seu retorno e a do próprio livro. Todas envolventes e tocantes.

O que mais me chamou a atenção foi o impacto de sua história na vida real. Cahalan havia sido afetada por uma doença recentemente descrita, uma forma de encefalite autoimune desconhecida até para neurologistas de referência nos EUA com quem se consultou. Quantas pessoas não ficaram internadas como doentes mentais – e quantas não morreram – por causa de nossa ignorância?, ela se pergunta. Mas a partir de um artigo que escreveu para o New York Post sobre sua experiência, que posteriormente se desdobrou no livro, centenas de milhares de pessoas passaram a conhecer esse diagnóstico. Literalmente, vidas foram salvas graças ao conhecimento.

A história é emocionante do começo ao fim. Mas correndo o risco de parecer insensível, como divulgador de ciência tenho que confessar que nada me emocionou tanto como dar-me conta da força do conhecimento transmitido por uma história bem contada.

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Barraza JA, Alexander V, Beavin LE, Terris ET, & Zak PJ (2015). The heart of the story: Peripheral physiology during narrative exposure predicts charitable giving. Biological psychology, 105, 138-43 PMID: 25617658