Uma das histórias mais famosas sobre compaixão é a parábola do bom samaritano: um homem foi assaltado e largado ferido na estrada; enquanto religiosos passaram reto por ele sem ajudá-lo, foi um samaritano, povo que não se dava muito bem com os judeus, que parou para socorrê-lo. A história foi contada por Jesus no evangelho de Lucas com o propósito de destacar a importância da compaixão, mas infelizmente só ouvi-la não parece produzir grandes efeitos.

Há algumas décadas pesquisadores pediram a seminaristas universitários que preparassem um sermão, metade sobre essa parábola e outra metade sobre a carreira do teólogo. Terminado o texto deveriam ir para outro prédio, onde filmariam a apresentação. Antes de saírem o pesquisador falava: ou que eles já estavam atrasados, ou que estavam em cima da hora, ou que ainda tinham alguns minutos. No meio do caminho entre os dois prédios, contudo, havia um ator representando uma pessoa precisando de ajuda, caída numa soleira, cabisbaixa e com olhos fechados, que tossia quando eles passavam. Em geral, 60% dos voluntários não ofereceu auxílio. Noventa por cento dos “atrasados” mal viu o necessitado, 55% dos que estavam em cima da hora passou reto, e mesmo dentro os adiantados 37% não parou para ajudar. E não fez qualquer diferença ter preparado um sermão sobre o bom samaritano ou sobre carreira.

Não espanta muito, no entanto. A compaixão, afinal, passa pela experiência de sofrer com o outro: paixão vem de pathos, sofrimento em grego; compaixão significa, portanto, compartilhar da dor alheia. Apenas ler um texto não basta para nos colocar no lugar de quem sofre.

Lembrei desse estudo assistindo a nova série do Fantástico, “Vai fazer o quê?”. Baseado no americano “What would you do?”, o programa encena situações de desrespeito, humilhação ou ameaças feitas por atores em locais públicos, registrando e analisando a reação das pessoas que presenciam a cena. Há gente que olha e fica indiferente, há os que se indignam mas se calam, e há os que interferem na situação. A ideia não é julgar tais comportamentos, mas entender o que leva alguém a interferir ou não. Gente tocada pessoalmente pela situação – quem tem filhos e vê uma criança humilhada, quem convive com idosos e testemunha maus tratos contra um senhor – tende a intervir mais do que os outros, embora todos “saibam” que estão vendo um absurdo. No programa original às vezes a situação é modificada, colocando mais ou menos pessoas em cena, negros ou brancos etc., comparando as atitudes das pessoas conforme o cenário, e um painel de especialistas de diversas áreas comenta os efeitos das mudanças. Independente desses detalhes, no entanto, considero a veiculação do quadro muito salutar para a sociedade. Afinal, a encenação é tão intensa que mesmo sabendo ser tudo armado é difícil não se emocionar, passo essencial para desenvolver compaixão. Ver essas cenas, creio, é mais eficiente do que ouvir (ou preparar) uma aula de ética ou comportamento pró-social.

O programa americano já dura cinco anos, e torço para que a versão nacional seja renovada e, quem sabe, ganhe vida própria. Talvez menos de nós sigamos indiferentes diante do sofrimento alheio, pois como disse Desmond Tutu, “Se você é neutro em situações de injustiça, você escolheu o lado do opressor”.

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Darley, John M., & Batson, C. Daniel (1973). “From Jerusalem to Jericho”: A study of situational and dispositional variables in helping behavior. Journal of Personality and Social Psychology, 27 (1), 100-108 DOI: 10.1037/h0034449