fonte: pixabay

fonte: pixabay

Desde quando a verdade deixou de ser importante? Nesses tempos de pós-verdade e de ascensão do populismo, em que as pessoas desprezam o conteúdo das ideias em favor da forma do discurso, intelectuais, formadores de opinião, jornalistas, todos se perguntam perplexos quando isso começou.

Não sei se é uma boa ou má notícia, mas esse fenômeno não é tão novo assim. Pelas minhas contas os seres humanos estão privilegiando as emoções sobre a razão e a visão imediatista sobre os ganhos de longo prazo há bastante tempo. Mais ou menos uns duzentos mil anos. Quer dizer, desde que surgimos na Terra. Sim, porque na pré-história, vivendo em pequenos grupos, sem garantia de comida ou segurança, ser imediatista era uma vantagem – visão de longo prazo não era sequer possível num cenário em que só existia o agora. Encontrar um bando diferente, por sua vez, era uma grande ameaça. Brigas por territórios, disputas por recursos e doenças vindas de fora eram riscos reais. Ninguém pensava em confraternização entre povos sabendo que poderia ser morto a paulada ou por uma infecção carregada por “estrangeiros”.

O medo, o imediatismo, a aversão a pessoas de fora do nosso grupo ficaram então gravados em nossos cérebros, por trazerem vantagem naquele cenário. Claro que o cenário mudou muito – nada disso se justifica hoje – mas nossos cérebros continuam os mesmos. Então, provocar o medo como na xenofobia, apresentar recompensa imediata sem se preocupar com o futuro, estratégia do populismo, ou apelar para as percepções e emoções para turvar a razão, como ocorre na pós-verdade, são estratégias muito eficazes. Elas se aproveitam da programação embutida em nossos cérebros.

Se com todas essas limitações nós conseguimos chegar à lua, transplantar corações e enxergar elétrons foi por causa da ciência. Aos poucos fomos nos dando conta que não éramos capazes de lidar intuitivamente com desdobramentos futuros de ações presentes, que eventos complexos desafiavam nosso raciocínio, e desenvolvemos meios de nos proteger de nós mesmos. O método científico baseia-se colocar em cheque as intuições. Nós aprendemos a suspender as crenças, transformando opiniões em hipóteses, que podem ser testadas e refutadas, quando então somos levados a adotar uma nova opinião. Que também deverá ser testada, e assim por diante. A consolidação de dados, a probabilidade, a estatística, mostram como nossos impulsos levam a caminhos errados, como nossos medos são irracionais. E nos dão caminhos alternativos – e racionais.

Mais do que nunca, portanto, a educação em ciência deveria ser prioridade. Assim como o jornalismo científico e a divulgação de ciência. Órgãos de imprensa têm se associado às grandes empresas da internet para tentar controlar a proliferação das falsas notícias. É bom, mas não atinge a raiz do problema. A melhor – senão única – maneira de matar a pós-verdade no ninho é levar as pessoas a se darem conta de como somos inerentemente irracionais, e de que sem um método rigoroso somos levados a crer em bobagens e agir de forma prejudicial. A todos, inclusive a nós mesmos.

***

Leitura mental

Por falar em falhas de percepção e método para corrigi-las, a historiadora da arte Amy E. Herman desenvolveu um curso no qual, por meio das técnicas de observação e interpretação de obras de arte, nos ajuda a superar muitos obstáculos que se colocam entre a realidade e nosso cérebro. O curso deu origem ao livro Inteligência visual (Zahar, 2016), no qual Herman apresenta ao leitor a metodologia que desenvolveu para Avaliar, Analisar, Articular e Adaptar nossas percepções da realidade. Ilustrado com várias das pinturas e fotografias utilizadas por ela em suas aulas, ao longo da leitura vamos notando como nos falta atenção e objetividade no dia-a-dia – e como, felizmente, essas são habilidades que podem ser desenvolvidas.