Literatura

Visionários possuem ideias, não são por elas possuídos

Por Daniel Martins de Barros

05/04/2017, 00h48

   

A história de um rapaz desaparecido no Acre lembra muito um conto de Machado de Assis.

foto Rede Amazônica Acre

foto Rede Amazônica Acre

Os transtornos mentais sempre foram um tema caro para Machado de Assis. Como outros artistas geniais, ele usava os distúrbios psiquiátricos como uma lupa: os exageros e as deficiências nada mais eram do que maneiras de melhor entender a natureza humana, objeto final de sua investigação.

No pouco conhecido conto A ideia do Ezequiel Maia, publicado em 1883, Machado descreve um homem que, apesar de muito inteligente, aos poucos é tomado por uma espécie de obsessão que acaba dominando sua vida. “Era inteligente e lido; formara-se em matemáticas, e os professores desta ciência diziam que ele a conhecia como gente”. No entanto, sempre fora dado a devaneios, fantasias, que lentamente foram ganhando força. Não houve um surto repentino, mas uma progressão contínua: “parece também que ele não tocou de um salto o fundo do abismo, mas escorregando, indo de uma restauração da cabala para outra da astrologia, da astrologia à quiromancia, da quiromancia à charada, da charada ao espiritismo, do espiritismo ao niilismo idealista”, completa o autor.

Ciente disso ou não, Machado descreve um quadro clínico que só muito tempo depois seria formalizado como diagnóstico, o transtorno de personalidade esquizotípica. Tal transtorno na maioria das vezes começa no início da vida adulta, mas pode já dar sintomas na adolescência. Estes se dividem em três grandes grupos: 1) cognição-percepção – marcado por distorções cognitivas ou perceptivas, ilusões, crenças excêntricas e pensamento mágico; 2) interpessoais – ausência de amigos próximos, ansiedade social; 3) desorganização-excentricidade – pensamento estranho, fala peculiar, comportamentos excêntricos. Simplificadamente, trata-se de uma forma branda de esquizofrenia, em que o contato com a realidade fica frouxo, mas não se perde totalmente. Machado é tão preciso em sua descrição que inclui detalhes sutis do diagnóstico, como os grandes tratados elaborados por esses pacientes. Suas ideias mirabolantes não raras vezes os motivam a escrever longos textos, que para eles irão mudar o mundo. “Escreveu sobre este assunto uma extensa memória, em que provou a todas as luzes que a primeira ideia do homem foi o círculo(…)”.

Lembrei desse conto ao ler a notícia sobre um rapaz desaparecido em Rio Branco, no Acre. Segundo os pais ele sempre fora diferente, tinha como amigos apenas os mendigos e outros excluídos. Na adolescência passou a achar que tinha estudado pouco, e começou a ler de forma exagerada. Então, com cerca de 20 anos, começou um grande projeto, que mantinha em segredo, mas que iria “mudar a humanidade de uma forma boa”, segundo disse para a mãe. Começou a escrever livros, tentando patentear uma teoria que tinha criado. Até que há cerca de um mês os pais viajaram e ele se trancou no quarto durante três semanas, desaparecendo em seguida. Quando o cômodo foi aberto, continha 14 livros em código, as paredes cobertas de textos enigmáticos, além de um quadro retratando o rapaz sendo tocado por um alienígena e uma estátua do filósofo Giordano Bruno.

Claro que não se pode dar um diagnóstico à distância, ainda mais com informações tão incompletas. Talvez o rapaz seja mesmo um visionário – de acordo com seu pai, o psicólogo que o acompanhava disse que ele era “uma pessoa normal com uma grande ideia”. Mas fico receoso, pois é a grandeza que muitas vezes atrapalha. Como no caso de Ezequiel Maia, o problema não está em ter ideias grandiosas. A doença surge quando, de tão grandes que são, as pessoas perdem o controle sobre as ideias e passam a ser por eles controladas.

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Leitura da mente

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Sobre essa relação entre literatura e psiquiatria, peço licença para indicar hoje um livro em que sou co-autor com o Professor Táki Cordás. Fico à vontade para elogiar porque os textos não são todos meus, mas de vários profissionais da saúde mental que aceitaram o desafio de analisar clássicos da literatura universal à luz da psiquiatria, psicologia, psicanálise e até das neurociências. Com isso vemos como arte e ciência podem se unir para o melhor entendimento da natureza humana. Embora não seja um lançamento, Personagens ou Pacientes – Clássicos da Literatura Mundial para Refletir sobre a Natureza Humana (editora Artmed,2014), deve se manter atual enquanto os clássicos também forem.

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