“Eu não quero ser presidente. Vocês estão cometendo um grande erro. Você tem que ser inteligente para ser presidente. Deixe-me ser vice-presidente, esse é o trabalho para um verdadeiro idiota.”, reclama entre suspiros o ansioso personagem do Woody Allen em sua comédia Bananas, de 1971. Por uma sucessão de situações improváveis, esse judeu novaiorquino e neurótico acaba sendo levado a assumir a presidência de San Marco, uma fictícia república das bananas. Contra sua vontade, como deixa claro o protesto no qual ele levanta um ponto importante: seria mesmo necessário um alto QI para ser presidente?

Apesar de todas as críticas que podemos fazer ao teste de QI, uma vez que ele não avalia todas as habilidades do ser humano – inteligência interpessoal, criatividade, habilidade motora, para nomear algumas – o fato é que seu resultado dá uma boa estimativa tanto da inteligência fluida como da inteligência cristalizada. Inteligência fluida é a capacidade de raciocinar logicamente, lidar com problemas novos de forma eficiente, pensando de forma abstrata (os problemas lógicos e geométricos dos testes de QI avaliam esse aspecto). Já a cristalizada depende da formação da pessoa, é baseada no seu conhecimento, nas habilidades desenvolvidas ao longo da vida (a avaliação de vocabulário é uma forma de estimá-la).

Diversos estudos comprovam a relação entre as habilidades cognitivas das pessoas e sua competência geral, sucesso profissional e até maior expectativa de vida. A flexibilidade de raciocínio, a capacidade de associar elementos para lidar com situações imprevistas, a facilidade para separar o essencial do acessório, tudo isso colabora para que o sujeito lide de maneira mais eficaz com a gama enorme de obstáculos com que se depara na vida, seja no trabalho, nos relacionamentos e até consigo mesmo. Sabe-se que só QI não garante o sucesso, mas aparentemente inteligência é como dinheiro – não resolve nada sozinha, mas é melhor ter sobrando do que faltando.

Mas qual seria o impacto da inteligência – e de sua falta – no exercício da presidência da República? Em 2006 um pesquisador americano se dispôs a responder essa pergunta. Mesclando medidas diretas e indiretas da capacidade intelectual de todos os presidentes até então – como formação acadêmica, traços de personalidade, resultados de testes escolares ou militares disponíveis, entre outros – foi possível classificá-los quanto ao QI estimado. Comparando esse resultado com a posição que eles tinham em rankings históricos de “performance de liderança” e “grandeza presidencial” foi encontrada uma relação linear entre os dois fatores: quanto mais inteligente o presidente, melhor líder ele se demonstrou. E quanto mais limitado, pior seu desempenho.

Voltando à pergunta-título, um presidente pode ser burro? Poder até pode, mas isso dificultaria muito seu trabalho, o que fatalmente levaria a população a sofrer. Um presidente pouco inteligente teria dificuldade de resolver os milhares de problemas com que se depara, seria menos hábil na articulação dos interesses conflitantes que o cercam, não saberia se comunicar tão bem, teria poucas ideias que realmente trouxessem soluções para o país. Provavelmente um tal chefe da nação levaria o país a ter problemas como como recessão, inflação, baixos índices educacionais, dificuldade nas relações internacionais, baixa inserção no mundo globalizado – a lista é enorme.

Mas a boa notícia é que tais desastres – estes especificamente ligados à capacidade do presidente – poderiam ser prevenidos. Não pela obrigatoriedade de testes de inteligência para se candidatar. Antes, estimulando a curiosidade dos eleitores quanto ao QI dos seus candidatos. Com certeza o primeiro que aparecesse na campanha revelando o seu QI introduziria uma inovação bem interessante para a corrida eleitoral. Para benefício de todos.

Ouça a coluna Ideias no Ar, da Rádio Estadão, sobre esse tema.

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Simonton, D. (2006). Presidential IQ, Openness, Intellectual Brilliance, and Leadership: Estimates and Correlations for 42 U.S. Chief Executives Political Psychology, 27 (4), 511-526 DOI: 10.1111/j.1467-9221.2006.00524.x