O Brasil ficou mais burro nos últimos dias. E menos bem-humorado. Bom humor e inteligência, afinal, são (ou deveriam ser) parceiros de trabalho.

Com a morte de Chico Anysio e de Millôr Fernandes calam-se duas vozes que mostravam como o humor pode ser fundamental para uma sociedade ao criticar comportamentos, expor os desvãos, confrontar-nos com nossos pecados e defeitos nos levando a repensar valores e atitudes. Para rir, afinal, somos obrigados a pensar.

A teoria clássica do riso, cujas raízes remetem à Grécia antiga, particularmente a Aristóteles, dizia que o riso é sempre fruto do desprezo, da humilhação. Como Cícero escreveria em seu livro sobre a oratória, “a causa principal, se não a única causa, da hilaridade são aqueles tipos de observações que mencionam ou distinguem, de uma maneira que em si mesma não é inconveniente, algo que é de algum modo inconveniente ou indigno”. Na Renascença, com a retomada das ideias do classicismo, essa visão se manteve até mesmo entre os médicos que recomendava o riso como uma meio de regular os humores corporais: Laurent Joubert, importante médico-cientista francês, dizia que o riso está associado à alegria mas nunca fica dissociado da tristeza, pois “Como tudo que é ridículo se origina da feiúra e da desonestidade (…) qualquer coisa ridícula nos dá um prazer e uma tristeza combinados”. Essas teorias foram se modificando ao longo do tempo, mas até os tempos atuais acredita-se que o humor traga consigo sempre algo de agressivo, de violação. Como dizia Hobbes, fazer graça “consiste em descobrir e mostrar à nossa mente, com elegância, alguns absurdos cometidos pelos outros”. É aí que reside o dom dos humoristas talentosos.

Homens dotados de enorme inteligência, Chico e Millôr eram capazes de nos mostrar problemas sem perder a elegância, fazendo piadas, como recomendava Cícero, “de uma maneira que em si mesma não é inconveniente”. Eles sabiam que os defeitos e vícios que denunciavam, quer em textos, desenhos ou personagens, faziam rir não por agredir indivíduos, mas por se utilizar da possibilidade de um “riso não ofensivo” que o próprio Hobbes achava possível – aquele que ocorre quando rimos “dos absurdos e dos defeitos que abstraímos das pessoas, em situações nas quais todos podem rir em conjunto”.

Embora Chico Anysio dissesse que no humor ninguém é substituível, torço para que outros comediantes ocupem o nicho da crítica elegante, que faz pensar e rir ao mesmo tempo. Esse lugar fica praticamente desocupado quando comediantes voltam-se para ofensas pessoais em espetáculos “proibidões”. Como o stand-up, que vem dando o tom do humor no país, é novo por aqui (apesar de iniciativas isoladas anteriores, como do próprio Chico e alguns outros), acho que ele está passando por uma espécie de adolescência, fazendo da rebeldia gratuita sua bandeira e desqualificando como babacas quem levanta objeções. Tomara isso passe. Pois se virar adulto, quem sabe esse humor também trocará o ímpeto pela reflexão, como acontece quando amadurecemos, ganhando elegância e desenvolvendo a inteligência que sofre tanto com a partida de Chico e Millôr.