Nós temos a mania de culpar os pais quando vemos um jovem que se comporta mal. (Claro, exceto quando os pais somos nós. Nesse caso, preferimos culpar a geração inteira). Mas no caso do uso excessivo dos smartphones  a culpa pode não ser dessa geração, nem da anterior, e sim dos antepassados longínquos. Pelo menos é o que propõe uma teoria bastante interessante sobre o vício em celulares.

Uma dupla de pesquisadores canadenses publicou um artigo no qual defende que as redes sociais na verdade respondem a uma necessidade básica dos seres humanos, a de monitorar o seu entorno social e manter-se no foco das outras pessoas. Afinal de contas nós evoluímos como espécie dependendo uns dos outros, não só do ponto de vista material – para conseguir alimento e segurança – mas também cognitivo. Nosso funcionamento mental ótimo depende das informações culturais relevantes que nos cercam. Não é de hoje que passamos o tempo checando o que os outros estão fazendo, para onde estão indo, se estão calmos ou estressados – isso desde sempre foi fundamental para nossa tomada de decisão.

Da mesma forma que monitoramos os outros sabemos que estamos sendo monitorados, o que também deve ter sido importante na moldagem de nossa cognição. Até hoje o controle social informal – nossa reputação diante da sociedade – é mais forte do que o controle social formal, como as leis, no direcionamento de nossas atitudes.

As redes sociais funcionariam, então, como uma forma de turbinar essa tendência natural. Com os smartphones em mãos nos tornamos capazes de dedicar não apenas algum tempo à atividade de ver e ser visto – antes, ganhamos um superpoder que responde a uma necessidade básica. Como a junk food se torna irresistível por elevar artificialmente nossa satisfação de suprir necessidades básicas (calorias, sódio), trazendo uma sensação de recompensa impensável na natureza, também as redes sociais podem viciar apenas por que nos dão o que queremos.  Cada alerta de mensagem, cada like recebido, cada notificação de e-mail funciona como uma recompensa social, que por ser intermitente reforça muito o comportamento de checar e conferir.

A solução? Se não é possível nos livrarmos da tendência natural de buscar ver e ser visto, podemos ao menos quebrar essa cadeia de reforços intermitentes. Determinar horários mais ou menos fixos para checar e-mails, mensagens e redes sociais, deixando os alertas desligados, já é um grande passo. Fazer um esforço consciente para valorizar o contato presencial, desfrutando o momento, também ajuda.

E é urgente buscar essa moderação. Porque assim como as comidas industrializadas, a tecnologia também nos prejudica se nos dá em excesso aquilo pelo que ansiamos desde o tempo das cavernas.

 

Veissière SPL and Stendel M. Hypernatural Monitoring: A Social Rehearsal Account of Smartphone Addiction. Front Psychol. 2018; 9: 141. doi: 10.3389/fpsyg.2018.00141 PMID: 29515480

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Leitura mental

“Toda infelicidade dos homens provém de uma única fonte, a de que não sabem permanecer quietos em um cômodo”, afirmou o filósofo Blaise Pascal. Não nos tornamos intolerantes ao tédio por causa dos smartphones, nós os inventamos por conta de nossa intolerância. Essa ideia norteia o livro Silêncio : Na era do ruído, do escritor, editor e aventureiro norueguês Erling Kagge (editora Objetiva, 2017). Somos tão incapazes de lidar com a ausência de estímulos que, numa das pesquisas citadas por Kagge, voluntários escolheram tomar choques dolorosos apenas para aliviar seu tédio. O autor faz uma defesa do silêncio, no entanto, defendendo que ele não significa a ausência de barulho, mas a capacidade de nos refugiarmos em nós mesmos de tempos em tempos, trancando do lado de fora o mundo. O que, garante ele, é uma “ferramenta prática para uma vida mais rica”.