O que se passa na cabeça de um corrupto? Essa é a pergunta que estamos tentando responder ao longo desse mês na série “Mentes corrompidas”. No artigo anterior vimos que quando alguém é investido de poder tende a considerar suas faltas menos graves, sendo mais duro no julgamento dos outros, no que é chamado de hipocrisia moral. Mas o que acontece depois que o sujeito decide roubar?

Sim, porque de forma geral ninguém é a favor da corrupção. Honestidade é vista como um valor universal e todos sustentamos que o correto é agir dentro das leis e das normas. Por conta dessa postura que apregoamos, quando nos comportarmos de maneira desonesta temos uma sensação bem desagradável da qual tratamos de nos livrar o mais rápido possível. É a chamada dissonância ética (subtipo de dissonância cognitiva, que ocorre quando pensamos de uma forma mas agimos de outra). Para nos livrarmos do mal-estar tentamos abandonar o comportamento; quando isso não é possível  (por ser passado, por ser algo de conhecimento público etc.) nós alteramos então nossas próprias crenças. Mas há crenças que não podemos mudar (não dá para defender que a corrupção seja correta, por exemplo) e então passamos aos maiores exercícios mentais para reduzir a gravidade do malfeito. Seja embaralhando a verdade, justificando os fins pelos meios ou apontando a desonestidade alheia, sempre damos um jeito de nos convencer que não erramos tanto assim.

E o mais estranho é que o tamanho da culpa é inversamente proporcional aos ganhos com a desonestidade. A dissonância ética parece ser maior, incomodar mais, quando alguém age contra os princípios que defende e lucra pouco com isso.

No conto Suje-se gordo, Machado de Assis conta a história do julgamento de um sujeito que havia roubado pequena quantidade de dinheiro. Um dos membros do júri, chamado Lopes, disse aos outros que sua indignação vinha não do crime, mas do valor irrisório roubado: “Tudo por uma miséria, duzentos mil-réis! Suje-se gordo! Quer sujar-se? Suje-se gordo!” A condenação foi unânime. Anos depois o narrador se vê em outro júri, e dessa vez o criminoso era não outro senão o próprio Lopes. Era acusado de roubar grande monta de dinheiro mas foi absolvido, convencendo os jurados de sua inocência. Já que foi se sujar, sujou-se gordo. E saiu ileso.

O conto ilustra esse último aspecto da dissonância ética. Quando ganha-se pouco por ferir nossas próprias regras, tentamos com mais força distorcer a verdade. Achamos intolerável a ideia de  vendermo-nos barato e nos convencemos que a crença original é que estava errada. Já quando os ganhos são grandes aceitamos melhor o comportamento criticável – sim, errei, mas pelo menos ganhei muito. E mais interessante: isso também vale para quando avaliamos o comportamento dos outros. Cientistas chineses e americanos demonstraram que quando nós testemunhamos infrações cometidas por dinheiro, tendemos a considerar mais condenáveis as pessoas que ganharam pouco. Quando o volume de dinheiro é maior, colocamos nele – no dinheiro – parte da culpa.

Está feita a armadilha. Todos temos de cor um discurso contra a corrupção, mas quando temos a oportunidade de obter algum ganho de forma ilegal (comprando DVD pirata, baixando músicas, subornando guardas, comprando sem nota, andando na faixa de ônibus, sonegando imposto – você escolhe), muitas vezes optamos por esse caminho justificando nossos atos como menores, desprezíveis no cenário geral, não tão errados assim etc. E a pequena corrupção não para. E aqueles que, como o Lopes do conto, “sujam-se gordo”, tendem a roubar cada vez mais para se sentir melhor. E a grande corrupção também não para.

Nada disso desculpa os corruptos, é evidente. Mas mostra que a honestidade é um bem frágil, que não deveria ser tão constantemente posto à prova. A melhor maneira de criar uma sociedade honesta talvez não seja pedindo aos cidadãos que tenham fibra moral para resistir à tentação de se corromper, mas que tenham coragem de criar instituições que não lhes dê chance de tentar.

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Xie, W., Yu, B., Zhou, X., Sedikides, C., & Vohs, K. (2014). Money, moral transgressions, and blame Journal of Consumer Psychology, 24 (3), 299-306 DOI: 10.1016/j.jcps.2013.12.002