Minha filha de três anos me pediu um kit de experiências de presente. Imagine um pai feliz. Tudo bem que ela não tirou do nada essa ideia – ela se inspirou no kit do irmão, de cinco anos. Duplamente feliz: dois filhos com tendências nerds.

A satisfação que senti me fez pensar em como as coisas mudam. Os pais sempre gostaram de achar os filhos inteligentes, sem dúvida, mas eu cresci numa época em que nerd era ofensa (geek então era palavra desconhecida) e nós fazíamos o possível para disfarçar a “condição”. Os pais até ficavam orgulhosos, não havia pressão para nos desfazer a nerdice dos filhos, mas geralmente orientavam a não ficar propalando o fato – podia pegar mal, prejudicar nos relacionamentos.

Quando foi que isso mudou? E mais importante: por quê?

O quando não é muito difícil de determinar. Um marco fundamental pode ser estabelecido no fim do século XX, quando do surgimento, ainda discreto, da celebração do orgulho geek. Esses eventos de autoafirmação viriam a explodir a partir de 2006, quando a data alcançou fama mundial. Agora todo ano, 25 de maio, os nerds do mundo se unem para exaltar o pensamento sistemático, os interesses peculiares e a paixão pela cultura pop. Promoções em diversos sites de vendas ocorrem por ocasião desse dia. De fato nos ano 2000 esse mercado explodiu. E talvez aqui esteja ao menos um dos porquê.

A revolução tecnológica pela qual o mundo passou com o advento dos computadores pessoais e da internet, seguidas dos celulares e smartphones, transformou a vida dos nerds de duas maneiras. Em primeiro lugar as habilidades sociais se tornaram menos importantes para a inserção na sociedade. O florescimento dos contatos virtuais facilitou em muito a vida daqueles mais introspectivos, com menos traquejo no contato pessoal. Se isso não bastasse, os seus talentos se tornaram mais importantes do que nunca para manter nosso mundo de pé. Quem já ficou desesperado atrás do moleque da TI quando cai o sistema sabe do que estou falando.

Como vivemos num mundo capitalista, isso resultou em dinheiro no bolso desse povo: mais inseridos na sociedade, com seu trabalho mais valorizado, o negócio era aproveitar. Então, quando essa geração de jovens nascidos na era digital se dispôs a gastar o que estava ganhando, o mercado geek teve um boom. Seriados, filmes, lojas, livros, videogames, traquitanas digitais mil surgiram. (Uma editora chegou a me sondar para escrever especificamente para esse público, que tem interesse em livros, estava em busca de identidade e cheios de dinheiro: eram uma mina de ouro). E como quem tem valor nesse mundo é quem consome, um círculo virtuoso se criou.

Daqui a pouco essa febre passa, contudo. Historicamente, quando as minorias são absorvidas e aceitas pela sociedade elas já não precisam mais se autoafirmar. Não é mais necessário empunhar bandeiras e gritar palavras de ordem, e identidade de grupo vai se perdendo. Tudo bem. Novos queridinhos do mercado surgirão, os nerds não serão mais os reis do pedaço. Mas então já estarão integrados e bem-sucedidos. Que é o que todo mundo deseja, afinal.

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Leitura mental

O livro As cientistas – 50 mulheres que mudaram o mundo, de Rachel Ignotofsky, lançado esse ano pela editora Blucher reúne tantas qualidades que é difícil saber por onde começar. A autora corrige uma injustiça histórica, que associa a ciência ao universo masculino, mostrando contribuições fundamentais de cientistas mulheres que muitas vezes não nos damos conta. Eu me surpreendi ao saber que o fator de crescimento de neurônios, por exemplo, foi identificado pela neurologista Rita Levi-Montalcini, ou que o método Ball, para tratamento da hanseníse, deve seu nome à química Alice Ball. As biografias são bem escritas e curiosas, ao mesmo tempo objetivas e informativas. A linguagem é adequada para jovens e adultos. As ilustrações são divertidas, incluem linhas do tempo, instrumentos de laboratório, dados estatísticos. E como se não bastasse o livro é lindo. Vale para as meninas se inspirarem e para os meninos crescerem sem preconceito.