Muitos e melhores colunistas já discorreram sobre a questão geopolítica dos refugiados, seja fugindo da guerra na Síria e tentando chegar à Europa, seja fugindo da pobreza no Haiti ou no Senegal e tentando chegar ao Brasil. Mas nada se compara à avalanche de notícias, comentários e postagens depois que correu o mundo a foto do menino Aylan Kurdi morto na beira da praia. Nas 12 horas imediatamente após a divulgação da imagem o escritório da ONU para Refugiados recebeu mais de cem mil euros em doações espontâneas. Por quê? Por que milhares de palavras escritas, horas de opiniões gravadas e centenas de denúncias na imprensa mundial não haviam sido suficientes para mobilizar a opinião pública? De que forma estávamos falhando? O impacto da foto sugere que faltava empatia.

No recém-lançado O poder da empatia (Editora Zahar), o sociólogo e filósofo Roman Krznaric, um dos fundadores da The School of Life, mostra que a empatia é uma força humana que pode ser explorada para, literalmente, mudar o mundo. Mais do que uma emoção secundária, a empatia vem pré-programada em nossos cérebros e tem a capacidade de modificar nossas crenças e atitudes. Se isso é possível no plano individual, Krznaric propõe, é hora de usarmos sua força para empreender mudanças coletivas. Pois apesar de ser natural no ser humano, há ocasiões em que, por uma conjunção de fatores, ocorre um déficit generalizado de empatia, e nos tornamos incapazes de nos “colocar no lugar do outro por meio da imaginação, compreendendo seus sentimentos e perspectivas”, e portanto deixamos de usar “essa compreensão para guiar as próprias ações”, em suas palavras. Guerras, estados de miséria, tortura – e por que não, corrupção desenfreada – são situações que só se sustentam na medida em que pessoas deixam de se colocar no lugar dos outros. Caso contrário, se verdadeiramente compartilhássemos da dor alheia – tais situações seriam intoleráveis.

A foto de Aylan teve esse papel – promover a empatia. As notícias sobre Síria, Estado Islâmico e política para refugiados são sempre complexas e difíceis de compreender totalmente. A questão dos imigrantes também não é simples e dá margem a raciocínios abstratos, coisas como soberania nacional, previdência social etc. E se aceitarmos todo mundo? E se recusarmos todo mundo? Qual a obrigação da Europa? O Brasil já não tem brasileiros pobres o suficiente para receber mais? Até que vemos uma criança morta de bruços na areia. E o estômago aperta num nó. Cara a cara com a morte crua, sobretudo de uma criança, somos mobilizados em nossas emoções mais primitivas e nos remexemos na urgência de que algo tem que ser feito. Um estudo curioso feito na Inglaterra mostrou como a foto de crianças tem poder de nos fazer tomar atitudes reais. Pesquisadores “perderam” 280 carteiras pela cidade, dividas em 4 grupos de 70: elas traziam a foto de um cãozinho, ou de uma família feliz, de um casal sorridente, ou então de um bebê. Tinham também um cartão com o endereço do dono, para ser devolvida caso fosse encontrada. Nada menos que 88% das carteiras com a foto de bebê foram devolvidas (o cão praticamente empatou com a família – 53% e 48% de devolução – e o casal amargou apenas 28% de carteiras retornadas). A imagem de uma criança, em sua vulnerabilidade e dependência totais, mexe profundamente com nossos instintos empáticos.

Eu não entendo muito de geopolítica. Nem de história. Mas como Terêncio, sou gente, e tudo o que tem a ver com gente tem a ver comigo (“Sou humano, e nada do que é humano me é alheio”). Aylan tem a ver comigo. Os haitianos mortos no centro de São Paulo têm a ver comigo. Cada pequena polêmica que surge hoje em dia dá lugar a uma campanha #somostodos alguma coisa. Talvez essa seja a forma de traduzir – dentro da superficialidade possível na internet – a fala de Terêncio. Tudo tem a ver com todos. Se olharmos de perto o suficiente, descobriremos que #todossomostodos

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Ouça a coluna Ideias no Ar, da Rádio Estadão sobre o tema.

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