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Como disse uma colega, o Leonardo DiCaprio trabalha tão bem em Ilha do medo, que a gente até esquece que ele é bonito. Falo o mínimo possível do filme para evitar spoilers, mas a esta altura todo mundo já sabe que é o mais recente filme de Martin Scorsese, um dos melhor diretores da atualidade, no qual DiCaprio interpreta um policial que vai investigar o desaparecimento de uma paciente num hospital-presídio para doentes mentais criminosos que fica em uma ilha. (Como foi baseado no livro “O paciente 67”, de Dennis Lehane – autor também de Sobre meninos e lobos, que virou filme nas mãos de outro mestre, Clint Eastwood -, a Cia. das Letras teve a infeliz ideia relançá-lo com o novo título, agora homônimo ao filme. Vale pelo relançamento, ao menos). As filmagens foram feitas num antigo hospital psiquiátrico, que segundo Scorsese dava medo só de entrar. E por que será que isso acontece?

Até a metade do século XX (1950, outro dia, portanto), não havia sequer um medicamento específico para transtornos mentais. Os hospitais serviam, portanto, para afastar as pessoas que, em surto, eram uma ameaça para si ou para os outros. E na ausência de remédios, a arquitetura fazia as vezes de tratamento; a sua base era, em grande medida, a contenção e a restrição física. Em se tratando de pacientes que haviam cometido crimes, então, a preocupação central sempre foi com a segurança. Isso transparece até hoje no nome das instituições que abrigam as pessoas nessas condições no Brasil: Hospitais de Custódia e Tratamento. Em primeiro vem a custódia, o aspecto policial, e só depois a terapêutica.

Embora o mito de Pinel atribua a ele a libertação dos loucos de suas correntes, com a instituição dos “tratamentos morais” (sinônimo de psicológicos, termo ainda inexistente à época), seria preciso aguardar mais um século e meio até que o surgimento da clorpromazina, o famoso Amplictil, desse início à fase científica da psicofarmacologia, libertando de fato os doentes mentais: nas suas primeiras duas décadas de utilização, a clorpromazina reduziu em 70% o número de pacientes no manicômios (I).

Grande parte do preconceito que até hoje cerca a Psiquiatria vem dessa época, quando um diagnóstico desses era uma condenação e os médicos alienistas tinham pouco a fazer, além de observar e aguardar. Muita coisa mudou desde então, e venho acompanhando com otimismo o progressivo esclarecimento da população no que se refere aos transtornos mentais. Ninguém mais precisa fugir dos psiquiatras com medo de ficar internado ou ser acorrentado; nosso objetivo hoje é o mesmo que qualquer pessoa pode almejar: proporcionar aos pacientes uma vida normal, com as dores e os prazeres que dela fazem parte.

ResearchBlogging.org(I)Rosenbloom M (2002). Chlorpromazine and the psychopharmacologic revolution. JAMA : the journal of the American Medical Association, 287 (14), 1860-1 PMID: 11939878