Se você ainda não assistiu o curta-metragem In a heartbeat, faça como mais de vinte milhões de pessoas na última semana e veja aqui; são só quatro minutos, e é de graça.

Concebido como o trabalho de conclusão de curso de uma dupla de estudantes de animação, ele conta uma história universal. Os personagens estão naquela fase inicial da adolescência quando percebemos que o coração e o cérebro nem sempre trabalham em concordância quando o assunto é a paixão. Ao ver passar seu crush (que em outras gerações já foi chamado de paquera, pretê etc.), o protagonista sente o coração acelerar a tal ponto ele voa para fora do peito, saindo totalmente do controle. O filme toca temas como vergonha, medo da rejeição, preconceito, gerando uma empatia imediata – quem nunca esteve nessa situação, afinal? Só que existe um pequeno detalhe, que faz toda diferença: os protagonistas são ambos meninos.

Ao lado dos diversos elogios e convites para dezenas de festivais, a animação também provocou a ira de alguns, que o acusam de ser uma peça de propaganda anti-hétero ou uma tentativa de doutrinar crianças com a causa gay. E é com essas pessoas que eu gostaria de falar. Talvez você não tenha chegado a tanto ódio, mas se mesmo por um segundo o filme te incomodou, vale a pena refletir um pouco.

Antes de qualquer coisa: eu compreendo a irritação. Afinal, iniciativas como essas representam uma ameaça ao mundo que sempre conhecemos, no qual homossexualidade era proibida e severamente punida; se não criminalmente, ao menos pelas consequências negativas advindas da tremenda intolerância social. Para quem não aceita o comportamento homossexual, mudanças nesse status quo podem ser muito irritantes mesmo. Apesar disso, e é o que eu gostaria de trazer à discussão, esse estado de coisas não era bom para ninguém. Como ele é inútil para impedir a homossexualidade, já que nosso desejo não obedece a regras, mantê-lo não impede ninguém de ser gay. Sua única consequência é aumentar o sofrimento de quem é. E isso não é só uma maneira de dizer: um estudo publicado esse ano no JAMA-Pediatrics, um dos periódicos do prestigioso Journal of the American Medical Academy, mostra que os adolescentes gays, lésbicas ou bissexuais têm risco até sete vezes maior de tentar suicídio do que os heterossexuais. Uma pesquisa nacional com esses estudantes americanos de nível médio mostrou que 40% deles considerou o suicídio em algum momento, e nada menos do que 29% deles tentou de fato se matar. A intolerância pode tornar a vida intolerável.

Sim, esse singelo curta-metragem é consequência (e causa) de uma sociedade cada vez mais tolerante. Mas isso não significa que héteros passarão a ser minorias, atacados por não serem gays. E pode se tranquilizar, pois as crianças não decidem sua orientação sexual baseadas em propaganda – aliás, está aí uma coisa que a gente sequer “decide”. Lembra como foi com você?

Sim, vai acontecer de vermos mais pessoas homossexuais andando por aí. Mas não porque as pessoas foram doutrinadas por Hollywood, e sim porque se sentiram mais tranquilas para viver seus afetos fora das sombras. Então, a não ser que seu desejo seja que os gays, lésbicas e bissexuais se matem mesmo enquanto são jovens – e se for, não temos muito que conversar – não precisa temer esse novo mundo. Ele não terá mais gente virando gay; só terá menos gente se matando.

Hatzenbuehler ML. (2017) The Influence of State Laws on the Mental Health of Sexual Minority Youth. JAMA Pediatr. 171(4):322-324.

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Leitura mental

Por falar em adolescência, depressão, suicídio e vídeos virais, o comediante Kevin Breel fez uma palestra no TED, com mais de dois milhões de visualizações até agora, contando sua experiência com a depressão na adolescência. Quando ele tinha 19 anos chegou a planejar o suicídio, desistindo na última hora. Ele conta essa história no livro Confissões de um adolescente depressivo, lançado pela editora Seoman esse ano. “(…) embora em particular eu ficasse dolorosamente constrangido com toda e qualquer coisa que tivesse que fazer com minha existência, para o resto do mundo eu era um verdadeiro coquetel de travessura, extravagância e porra-louquice.”, descreve ele. De fato é bem comum que adolescentes problemáticos no fundo estejam deprimidos sem que ninguém note, e o livro funciona muito bem como alerta. Não é um tratado sobre a depressão, obviamente, mas tem as grandes virtudes de não menosprezar o impacto negativo da depressão ao mesmo tempo em que mostra ser possível superá-la.