Não lembro onde li, acho que foi numa resenha de uma coleção de filosofia, há muitos anos, que os filósofos eram os chatos essenciais, que paravam para fazer perguntas quando o esperado seria seguir em frente. Chatos, sim, porque parar para pensar dá trabalho, e o mundo tem pressa demais para isso. Mas às vezes essa pressa cobra seu preço, e uma vida não refletida, vivida no automático baseada em pressupostos superficiais e recheada de pensamentos automáticos leva a profundas crises – quando não ao adoecimento mental.

Atribui-se a Sócrates, o pai da filosofia ocidental como a conhecemos, o desenvolvimento de uma técnica de investigação dos pensamentos, profunda e sistemática, que ficou conhecida como questionamento socrático. Em seus diálogos, registrados por seu aluno Platão, vemos como ele parava para conversar com os cidadãos e, interessando-se verdadeiramente por suas opiniões, aprofundava progressivamente as perguntas para chegar aos fundamentos daquelas crenças. Frequentemente o interlocutor acabava gaguejando, notando que suas opiniões não tinham qualquer fundamento sólido.

Para uma corrente importante da saúde mental, é justamente a presença de pensamentos automáticos, com fundamentos distorcidos, que nos levam a quadros depressivos. Diante de uma adversidade qualquer, fruto do acaso, é comum personalizarmos a questão, automaticamente interpretando-a como um sinal de nossa incompetência que nos condena inexoravelmente ao fracasso. Um relacionamento naufragou? “Também, eu tenho dedo podre!”, pode vir à mente automaticamente. O chefe não deu elogiou o trabalho? “Claro, eu nunca vou conseguir agradar nenhum chefe mesmo!”, e assim por diante. E pior, sem nos darmos conta disso.

Será que o questionamento socrático, tão útil na investigação filosófica sobre a vida, poderia ajudar nessa tarefa? Desmascarar crenças infundadas sobre nós mesmos combateria sintomas depressivos?

Um estudo americano acaba de comprovar que sim.

Cinquenta e cinco pacientes com sintomas depressivos foram tratados por terapeutas cognitivos durante dezesseis semanas, focando especificamente na quantidade de perguntas socráticas que eram feitas nas sessões. Mesmo depois de corrigir os resultados levando em conta características individuais dos pacientes e da aliança terapêutica estabelecida, os cientistas notaram que quanto mais eram questionados numa sessão, melhor os pacientes se apresentavam na semana seguinte. Ouvir perguntas como: “Passar por uma demissão é sempre uma condenação?”, “Você consegue pensar em situações em que terminar um relacionamento seja algo bom?”, “Ganhar menos dinheiro é necessariamente um sinal de incompetência?” e assim por diante, ajudou as pessoas a verem os quadros de suas vidas de maneira mais ampla. E essa é uma habilidade que parece não se perder com o tempo, ajudando a recuperação também no longo prazo.

Talvez não seja por acaso que o próprio Sócrates já advertia, milênios atrás, que a vida não refletida não valia a pena ser vivida. Vale a pena refletir, não?

ResearchBlogging.org
Braun, J., Strunk, D., Sasso, K., & Cooper, A. (2015). Therapist use of Socratic questioning predicts session-to-session symptom change in cognitive therapy for depression Behaviour Research and Therapy, 70, 32-37 DOI: 10.1016/j.brat.2015.05.004

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Férias para você, não para seu cérebro.

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Costumo dizer para os meus pacientes que nós aceitamos que qualquer função do corpo adoeça: visão, filtração renal, digestão. Mas quando a função mental é atingida, ficamos indignados: não somos loucos, não estamos inventando nada. Extraindo casos de sua experiência como neurologista, Suzanne O’Sullivan nos apresenta no livro Isso é coisa da sua cabeça (Best Seller, 2016) casos comoventes de pacientes com transtornos psicossomáticos, mostrando a importância a e gravidade dessa condição, ao mesmo tempo que nos mostra um poder fascinante e aterrorizante da mente humana.