Essa história é muito boa: o mágico e escapista Harry Houdini queria convencer o amigo Sir Arhtur Conan Doyle a não acreditar que algo era sobrenatural simplesmente por não ter explicação. Para tanto, mostrou a ele uma pequena lousa, pendurada no meio de um quarto – sem nada por perto – e pediu que ele andasse para longe da casa e escrevesse qualquer coisa num papel, guardando-o no bolso. Quando ele retornou, Houdini pediu que colocasse uma bolinha de cortiça embebida em tinta branca sobre a lousa flutuante. Para seu espanto a bola ficou grudada na superfície e começou lentamente a rolar, deixando um rastro de tinta com o qual reproduziu exatamente as palavras que Doyle havia escrito. Houdini queria mostrar que fenômenos misteriosos podiam ser produzidos por truques, mas o escritor ficou tão impressionado que se recusou a acreditar ser uma ilusão. Para ele, Houdini era médium e não admitia. Tornavam-se assim ex-amigos. (Se quiser saber como o truque foi feito, clique AQUI).

Lembrei da história da famosa briga entre eles ao assistir o documentário An honest liar, disponibilizado agora no Netflix. O mentiroso honesto do título é James Randi, um mágico e escapista famoso no século XX, que hoje dedica sua vida a desmascarar charlatães de todas as estirpes. Sua Fundação Educacional oferece o prêmio de um milhão de dólares para quem conseguir comprovar poderes psíquicos ou paranormais, mas até hoje ninguém pôs a mão no dinheiro. Inspirado por Harry Houdini – e considerado por alguns um artista ainda mais completo – Randi seguiu seus passos também na batalha contra aqueles que clamam ter poderes sobrenaturais. Houdini, como vimos, acreditava que os ditos poderes paranormais eram nada mais que truques de mágica, daí a querela pública com Conan Doyle, entusiasta de primeira hora do espiritualismo.

O que aconteceu com Houdini acontece também com James Randi – ele reproduz em suas apresentações exatamente as mesmas coisas que os paranormais: entorta colheres, lê mentes, move objetos, garantindo que está fazendo truques simples de ilusionismo. Mas não raras vezes a plateia se recusa a lhe dar crédito, e por vezes dizem que ele mesmo tem poderes psíquicos que não quer admitir. Como diz outro mágico entrevistado, Jamy Swiss, “As pessoas pensam que acreditam no que escolhem acreditar. Mas não. Elas acreditam no que ela precisam acreditar”.

De fato, todos acreditamos em algo. Seja em Deus, nos médiuns, em nossos sentidos, em nossa mente ou num mix de tudo isso, não é possível desligar a credibilidade humana. O mais cético dos céticos, como James Randi, também tem sua fé: ele acredita no método científico, pois esse tem pelo menos a possibilidade de corrigir a si mesmo (embora nem sempre o faça). Mas vemos como a coisa é mais complicada do que isso quando até os cientistas contratados para investigar tais poderes são enganados por Randi e dois comparsas – os pesquisadores ficam tão impressionados com o que vêem que, inadvertidamente, deixam-se levar pela habilidade dos rapazes e abandonam o rigor do métodos científico.

Em sua famosa palestra no TED, Randi – que toma um frasco inteiro de calmantes homeopáticos para mostrar que homeopatia não funciona – diz que encontra com muitas pessoas arruinadas, emocional e financeiramente, por terem investido todos seus recursos, pessoais e materiais, em charlatães. Lembrei da cartomante presa em Curitiba, após receber 380 mil reais de uma mãe desesperada, do casal australiano cuja bebê morreu após o pai insistir em tratá-la só com homeopatia, e dos pais que esse ano foram presos em Santa Catarina depois de a filha recém-nascia morrer de desnutrição por ser alimentada com um “tratamento alternativo”.

Talvez as pessoas acreditem mesmo no que precisam acreditar. Que seja. Mas num mundo em que charlatães fazem dessa crença motivo de lucro às custas do prejuízo dos crédulos, precisamos de mais Randis e Houdinis, dispostos a apanhar na batalha por um pouco mais de educação científica.

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