Ouvi na faculdade que quando há muitas explicações diferentes, provavelmente é porque nenhuma se provou definitiva. Tendo a concordar.

Tome a relação entre pais e filhos. A quantidade de teorias, escolas psicológicas, modelos animais, hipóteses antropológicas que existem sobre o tema não caberia numa biblioteca inteira. (Só como curiosidade busquei no Google a expressão relação entre pais e filhos, encontrando 25 milhões de resultados). Diante do mesmo fato há dezenas, senão centenas de explicações possíveis dependendo da teoria que se queira adotar. (Talvez sejam milhões, a julgar por minha breve pesquisa).

Certa vez fui procurado por uma pessoa, dizendo que seu filho pré-escolar estava muito bravo com ela, a ponto de querer vê-la desaparecer. Sempre fora uma criança tranquila, mas há tempos vinha assim, hostil. Mudo os detalhes para guardar o sigilo, mas a essência está mantida. A consulta era uma tentativa de entender o que estava se passando na cabeça da criança; quem sabe isso ajudaria. E agora? Quantos milhares de motivos, estudados por quantas centenas de teorias, explicam porque uma criança fica com raiva de um adulto? Haveria uma linha teórica que me daria a explicação para aquele caso?

Provavelmente motivado pelo que percebi no discurso e na expressão do adulto que me procurava, no entanto, encaminhei a conversa para si mesmo, em vez de me focar no filho. E ficou evidente que se tratava de uma pessoa com flagrante quadro depressivo, irritada, mau humorada, cansada, sem energia, sem alegria. Claro que tudo isso poderia ser consequência do desgaste na relação com a criança, mas apostamos juntos no contrário, e resolvemos tratar a depressão. Como num passe de mágica, conforme a saúde emocional foi restaurada a criança voltou ao seu padrão habitual de tranquilidade, afeto e apego. A irritação passou e a relação voltou ao normal. O problema não era a criança afinal, como muitos acadêmicos poderiam elucubrar.

Aprendi duas coisas com esse caso: em primeiro lugar, não existe teoria para tudo. A vida é muito mais complexa do que os livros, e a maioria dos fenômenos (humanos ou não) ainda não foi estudada pela ciência. Talvez nunca seja, mas mesmo assim eles estão ali, diante de nós, e precisam ser encarados. Em segundo lugar (não por acaso algo que não aprendi nos livros), um dos sintomas de depressão em quem tem filhos é a mudança de comportamento das crianças. A sabedoria popular diz mesmo que as crianças são esponjas, que captam o que os pais estão sentindo. Se isso ocorre com o estresse do dia-a-dia, imagine o estrago que pai ou mãe com depressão podem fazer. Desde então sempre pergunto para meus pacientes se eles notaram alteração no comportamento dos filhos durante a doença e depois da melhora. E todos contam a mesma história, de crianças que estavam arredias voltando a ser carinhosas.

Penso então que existe uma terceira lição, que vale para todos nós. Se nossos filhos estão muito mal-criados, briguentos ou problemáticos, antes de achar que isso é um problema deles, vale a pena olhar para nós mesmos. Em grande medida os filhos são de fato nossos espelhos.