Eu ainda não estou velho o suficiente para achar que o mundo era melhor antigamente. Não. Sou entusiasta das novas tecnologias, saúdo mudanças em geral e embora já não tenha mesma flexibilidade mental de antes para me adaptar às novidades, tento não ficar alheio a elas.

Não defendo, tampouco, o modelo tradicional de educação. Ele foi pensado para um mundo em que o conhecimento não estava tão disponível. Professores eram detentores de um saber que precisava ser transmitido para quem quisesse aprender. Assim como dos médicos, advogados, e mesmo jornalistas, o papel dos professores mudou nessa atual sociedade do conhecimento. Hoje qualquer um, de qualquer lugar do mundo, tem acesso aos mesmos conteúdos que qualquer profissional técnico – não somos mais guardiões de saberes com a missão de passá-los ao não iniciados. Antes, tornamo-nos gerentes da informação – o treinamento e formação profissional não garante mais exclusividade de acesso, mas ainda traz uma competência única para lidar com a informação disponível e auxiliar a transformá-la em algo útil.

Isso posto, acho temerárias – para não dizer pueris – críticas como as da Soninha Francine, que invadiram minha timeline, condenando o conteúdo programático cobrado dos alunos de ensino médio. Não vou aqui fazer uma defesa do vestibular em si, sistema obviamente falho e sujeito a vieses. Mas dizer que é perda de tempo ou inútil pedir que alunos candidatos a cursos de humanas dominem conceitos de física, química ou matemática, beira o obscurantismo. É evidente que, como médico, não preciso saber a fórmula de Bhaskara de cabeça. Nem como colunista preciso ser capaz de cálculos estequiométricos. Mas ao mesmo tempo mais de 80% do conteúdo que aprendi na própria faculdade de medicina não têm aplicação prática no meu dia-a-dia com os pacientes. Seria o caso então de diminuir o ensino médico para um ou dois anos? Claro que não. Como também não se deve abolir o ensino de exatas aos candidatos de humanas, e vice-versa. Porque o ensino não é apenas uma forma de enfiar informação na cabeça dos alunos – o que de resto é desnecessário com a atual tecnologia. Aprender matemática, física, química, biologia é uma maneira de compreender como funciona o mundo, de desenvolver o pensamento abstrato, de ser capacitado para manipular informações complexas, de construir raciocínio lógico, habilidades indispensáveis em qualquer exercício profissional competente. De que área for.

Sim, o professor forçosamente terá que mudar de postura (assim como o médico, advogado, jornalista), adaptando-se ao admirável mundo novo da livre circulação de informação. Os alunos serão cada vez mais questionadores, não aceitando passivamente o que recebem. A escola precisa se reinventar à luz dessa realidade. Talvez, como na Finlândia, até mesmo tentar abolir a divisão das disciplinas. Mas daí a afirmar que esses conhecimentos são inúteis é retroceder décadas. Na metade do século passado o físico e escritor inglês C. P. Snow denunciava, no influente ensaio “As duas culturas”, o abismo que vinha sendo gerado entre as humanidades e as ciências naturais, com prejuízos para ambas. “Deixem-me esclarecer melhor” ele pede. “É perigoso ter duas culturas que não podem ou não querem comunicar-se entre si. Numa época em que a ciência determina grande parte do nosso destino, ou seja, se vivemos ou morremos, essa falta de comunicação é perigosa em termos práticos. Os cientistas podem dar maus conselhos e os tomadores de decisão não terão jeito de saber se são bons ou maus”.

Num momento em que países como os Estados Unidos se desdobram em esforços para aumentar o número de estudantes nas carreiras STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática), cientes que essas habilidades são fundamentais para o progresso geral da sociedade, bradar pela inutilidade de conhecimentos básicos de exatas para todos pode ser um discurso barato para ganhar votos de intelectualoides superficiais – o que é ruim – ou então só o desabafo de quem não foi bem no vestibular – o que dá para entender.

SNOW C.P. As duas cultura e uma Segunda leitura : Uma versão ampliada das Duas Culturas e a Revolução Científica. São Paulo:EDUSP, 1995. pag 126.