Um dos termos mais controversos da história da psiquiatria é psicopatia. Se hoje vêm à mente os serial killers desalmados quando ouvimos essa palavra, por algum tempo ela designou também qualquer transtorno mental, leve ou grave, dada sua origem etimológica com raiz grega: psico = mente, pathos = doença. Quem primeiro tentou organizar essa bagunça foi um psiquiatra alemão chamado Kurt Schneider, um dos fundadores do estudo dos transtornos de personalidade.

A personalidade humana é variada em suas características, havendo gente mais tímida, mais expansiva, mais controlada ou explosiva e assim por diante. Assim como peso, altura, força física ou qualquer outra característica, existe uma faixa de variação normal dentro da população. Schneider diz que que as pessoas que vão além dessas variações mais comuns apresentam personalidades anormais, utilizando o conceito de normalidade como média, como o que é mais comum, e não como uma crítica ou um juízo de valor. Ele não considera patológico que as pessoas sejam excêntricas, tendo formas de ser e estabelecer relações fora do padrão. No entanto, em alguns casos essa excentricidade, essa diferença ou anormalidade, é prejudicial. Em quais casos? Quando leva a sofrimento, seja para a pessoa, seja para os que a cercam. São pessoas que mesmo sofrendo não conseguem agir de forma diferente, pois seu temperamento e caráter são fixos. Essas personalidades anormais que sofrem ou fazem sofrer foram denominadas por Schneider de personalidades psicopáticas. Vemos que não se trata exclusivamente de pessoas frias ou cruéis – qualquer um com traços de personalidade que, em seu conjunto, se torne tão deslocado que acabe causando ou sofrendo prejuízos, pode ser chamado de psicopata nessa classificação antiga.

Dentre as personalidades psicopáticas que Schneider apresenta destaco aqui os fanáticos: “Psicopatas fanáticos são dominados por pensamentos que exageram o valor de suas pessoas ou suas ideias. O fanático, em sentido próprio, é uma personalidade expansiva, pronunciadamente ativa (…) O fanático, que exagera o valor de suas ideias, luta ou apresenta demonstrações por seu programa.”

Imagine, então, uma pessoa que é convicta, tem certeza de que suas ideias são corretas e as defende com veemência. Até aqui tudo bem, não entramos ainda no terreno da psicopatologia se ela é capaz de questionar a si mesma, refletir sobre essa convicção extrema. Mas se ela for tão rígida que se torna impossível sequer dialogar talvez já estejamos falando de uma personalidade anormal: teimosia tão grande colocaria essa pessoa fora da média (portanto anormal). Só que quando quando essa convicção se torna um fanatismo, um exagero do “valor de suas ideias”, e com isso gera prejuízo, causa sofrimento, torna-a disfuncional, aí estamos na esfera da psicopatia, segundo Schneider.

Sim, seria uma “ato de grandeza” renunciar a tais convicções quando elas são prejudiciais. Mais do que isso, seria um caminho para a saúde. Mas por sua própria natureza, psicopatas fanáticos não renunciam. Para sofrimento de todos.


Schneider, K. Psicopatologia clínica. São Paulo: Editora Mestre Jôu. 1968. pág 55

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