O suicídio é um dos temas mais espinhosos para a cobertura da mídia – se por um lado não se pode negar o acesso à informação, por outro existe praticamente consenso que determinadas formas de abordagem do assunto na imprensa pode influenciar pessoas a imitarem tal comportamento. Se parece exagero imaginar que sejamos assim tão influenciáveis, vale lembrar que estudo após estudo vem mostrando que nossas escolhas, atitudes e até opiniões dependem muito mais do nosso entorno e das pessoas que nos cercam do que gostamos de admitir.

Talvez esse aspecto contagioso do suicídio seja um dos fatores envolvidos na recente profusão de casos de famílias inteiras mortas por um de seus membros, que se mata na sequência. Desde o crime atribuído ao menor Marcelo Pesseghini até o caso mais recente, no qual quatro filhos foram encontrados mortos junto com sua mãe no bairro de Ferraz de Vasconcelos com sinais de possível envenenamento (o qual ainda não se sabe se foi ou não homicídio-suicídio), pelo menos outros dois crimes foram provavelmente cometidos por familiares nesse curto espaço de tempo – um pai de família falido e uma mulher aparentemente psicótica, resgatada antes de morrer, também mataram seus parentes.

Importante ressaltar que o componente de imitação é apenas um dos elementos associados a comportamentos extremos como pôr fim à própria vida ou matar alguém. Na verdade não se pode reduzir atitudes tão complexas a nenhuma explicação simplista. Seria superficial afirmar peremptoriamente que a perda de um emprego, falência financeira ou mesmo a presença de um transtorno mental é a causa única e suficiente para que tais tragédias aconteçam – no final das contas, como todo fenômeno complexo, uma desafortunada sucessão de elementos é necessária para se chegar a isso.

No entanto, justamente por essa complexidade e por requerer uma cadeia de fatores extensa, quando conseguimos lidar com pelo menos algumas dessas variáveis é possível prevenir o suicídio. Detectar precocemente transtornos mentais e garantir o tratamento de seus portadores, por exemplo, é bastante eficaz nessa prevenção. Além disso, esclarecer a sociedade sobre a importância de sinais como ameaças de suicídio, tentativas prévias, discurso demonstrando falta de esperança e acesso a meios letais pode ajudar a identificar as pessoas em risco, propondo alguma intervenção antes que seja tarde. Divulgar iniciativas como do CVV, e mesmo de atendimentos emergenciais também é importante.

Afinal, o instinto de sobrevivência é tão forte em nós que às vezes basta um pouco de esperança para que se decida continuar vivendo.

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Merike Sisask, & Airi Värnik (2012). Media Roles in Suicide Prevention: A Systematic Review Int. J. Environ. Res. Public Health DOI: 10.3390/ijerph9010123