Há poucos anos enfrentei dias bem estressantes enquanto me preparava para dar uma aula sobre como lidar com o estresse. Irônico, eu sei. Mas era minha estreia como professor na The School of Life no Brasil, uma grife que sempre admirei, num formato de aula que não estava acostumado, para um público pagante que esperava um bom retorno de seu investimento. Não sei se era para tanto, mas acho que eu sentia que havia muito em jogo – conscientemente ou não.

Mas consegui fazer do limão limonada: assumi o nervosismo e usei meu próprio caso para ilustrar como todos podemos ser presas de nossa imaginação. Sim, porque não havia motivo real para ficar estressado naquela situação – eu iria falar de um tema que dominava, para um público que estava do meu lado (porque a plateia normalmente torce a favor do palestrante, não contra), com apoio de slides e de anotações abundantes. Veja como a mesma situação pode dar origem a cenários tão diferentes – opostos, até – em nossa mente. Num deles estamos condenados ao fracasso certo e à vergonha intolerável. No outro o sucesso é garantido e os louros já são favas contadas.

Mas no final das contas – graças à nossa capenga memória – a realidade é sempre diferente do que antecipamos. Para bem e para mal.

Para bem porque raramente os problemas têm a dimensão que nossa ansiedade confere a eles. Para mal porque quase nunca as alegrias são tão efusivas como antecipamos. Resumindo – nossas expectativas nos traem. Porque elas são construídas a partir de nossas memórias, e nós nos lembramos muito mais do que é emocionalmente intenso – seja bom ou ruim – do que das coisas corriqueiras. Criando cenários mentais a partir do que nos recordamos, portanto, esperamos que a luta ou a festa sejam terrível ou maravilhosa. Mas como o prosaico é muito mais comum – logo, provável – do que os raros momentos excepcionalmente emocionantes, obviamente há muito mais chance de a luta ser amena e de a festa ser mediana. Ou seja: nós nos preocupamos à toa antes ou nos frustramos de graça depois.

Não por acaso uma das sugestões mais interessantes para lidar com o estresse é cultivar o pessimismo. À moda dos filósofos estoicos, esperar pelo pior pode ser um grande alívio tanto para a ansiedade como para a frustração. O filósofo Sêneca, expoente do estoicismo, dizia que a melhor forma de não ficar ansioso era admitir que o pior cenário possível iria acontecer. A partir daí não ficaríamos mais temerosos, torcendo para que aquilo não ocorresse – uma vez que já estaríamos esperando pelo pior – e teríamos um grande alívio se o destino fosse outro. Da mesma forma, não experimentaríamos a frustrante sensação de aguardar algo de bom só para ver o sonho desmoronar.

Pode ser contra-intuitivo prescrever o pessimismo como forma de lidar com o estresse. Em tempos de autoajuda barata, quando o mantra é acreditar cegamente que tudo dará certo para atrair coisas boas, tememos que ao ser pessimistas atrairemos coisas ruins. O segredo, como diziam os gregos antes de Sêneca, é encontrar um meio termo. Não precisamos nos tornar negativos a ponto de não acreditarmos em nada, mas abrir mão de um otimismo tolo que só gera ansiedade e frustração é sim um remédio bem necessário em meio a tantos gurus do pensamento positivo.

***

Leitura mental

Falando em estresse, acabam de chegar o Brasil, pelas mãos da editora Sextante, os primeiros títulos da coleção que da The School of Life Press vem publicando em Londres. Alinhada com a missão de desenvolver a inteligência emocional por meio de fontes diversas do saber – indo das artes às ciências, seja literatura, filosofia, neurociências ou psicologia – o primeiro livro é o Calma. Ele junta as lições preciosas dos estoicos às dicas vindas da psicanálise, passando por lições da história e da cultura, levando-nos a refletir, com uma prosa para lá de elegante, sobre as principais situações que nos estressam – relacionamentos românticos, trabalho e a interação com o outro. Apesar da erudição o livro não se envergonha de ser autoajuda e tem a coragem de apresentar sugestões ao leitor, novamente buscando nas ciências e nas artes boas fontes de calma – fazendo jus ao título.