Será que o brasileiro se cansou realmente da corrupção? Ou a Lava Jato e seus desdobramentos serão, assim como o Michel Teló e as paleterias, um fenômeno que mobiliza o Brasil inteiro mas acaba em dois verões? Numa tentativa de alimentar minha esperança (que ainda luta contra minha desconfiança) de que a indignação perdure, resolvi contribuir para o debate ao longo de todo esse mês de março. Evidente que não é possível esgotar o assunto, mas introduzindo variáveis como a personalidade do corrupto, o impacto emocional do dinheiro, as relações entre o cérebro e a desonestidade, mais do que reduzir o problema da corrupção ao cérebro ou à mente das pessoas, meu anseio é ampliar o debate público, colocando em cena esses elementos que pouco se discutem.

Um dos primeiros pontos que chamam a atenção de quem olha para os escândalos nacionais é: será que os políticos corruptos não sentem nem uma pontinha de culpa? Onde foi parar a consciência deles? Conseguiriam dormir em paz?

Aposto que sim. Em grande parte por conta do próprio poder que eles têm. Esse poder mexe de maneira tão intensa com a mente que modifica – inconscientemente – a isenção do raciocínio moral.

Há poucos anos foi realizado um experimento que colocava voluntários em posição de poder ou de submissão e depois pedia-lhes para avaliar se algumas atitudes (dos outros e deles mesmos) eram aceitáveis ou condenáveis, como sonegar imposto ou violar regras de tráfego. Os resultados mostraram que as pessoas “poderosas” eram mais rígidas na condenação dos outros e muito mais tolerantes com as próprias violações. Será que o poder daria uma sensação de direito privilegiado, fazendo com as pessoas justificassem tão descaradamente seus atos? – questionaram os pesquisadores. Para testar essa hipótese, eles criaram cenários alternativos em que as pessoas poderosas perdiam a legitimidade de sua posição – ou seja, não seriam “especiais” de verdade. Nessas condições a diferença nas justificativas morais entre os voluntários com ou sem poder desapareceu.

Não vai dito aqui que todos os políticos eleitos serão necessariamente desonestos com paz de espírito. Como disse Lord Acton no século XIX, “O poder tende a corromper” [grifo meu]. A corrupção não tem um só causa, mas vários fatores de risco associados a sua ocorrência.

Quem sabe trazer à luz (mais) alguns desses fatores nos ajude a compreender esse fenômeno tão arraigado e tão pernicioso, que ocorre no mundo todo, mas que nos assola como praga no Brasil.

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Lammers, J., Stapel, D., & Galinsky, A. (2010). Power Increases Hypocrisy: Moralizing in Reasoning, Immorality in Behavior Psychological Science, 21 (5), 737-744 DOI: 10.1177/0956797610368810