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Se o Oscar vale para alguma coisa, serviu para me incentivar a assistir o documentário Life, animated. O algoritmo do Netflix já tinha me recomendado, avisando que eu iria gostar. Mas é como quando um amigo te empresta um livro sem você pedir – a gente até sabe que vai gostar, só que sempre há tanta coisa na fila que a gente vai adiando. A indicação ao prêmio de melhor documentário foi o empurrão que faltava.

O filme conta a história de Owen Suskind, um rapaz que quando criança, após três anos de desenvolvimento normal, começou a apresentar dificuldades de comunicação. Foi se fechando em seu mundo progressivamente, até deixar completamente de falar. Todas as formas de interação social ficaram prejudicadas. Foi quando os pais ouviram pela primeira vez o diagnóstico de autismo. O filme alterna vídeos caseiros da vida de Owen com depoimentos dele, de seu irmão, seu pai e sua mãe, construindo um arco dramático que vai da angústia do desconhecido, passando pelo luto da impotência, chegado a uma espécie de redenção, ainda que incompleta.

Desde muito cedo a família percebeu que os desenhos da Disney acalmavam o garoto. Era um tempo de paz e, mais do que isso, de comunhão – o irmão relata que era a única coisa que conseguia compartilhar com ele. Assistir a essas animações tornou-se então um ritual. Os desenhos eram vistos e revistos, os lançamentos eram adquiridos e entravam nesse looping infinito. Ele repetia algumas falas, o que era visto como ecolalia – sintoma que leva alguns autistas a repetir mecanicamente o que ouvem. Até que, a certa altura, o pai teve a ideia de usar um boneco como fantoche e fingir que estava conversando com Owen. Para sua surpresa o menino respondeu, e manteve um diálogo com o pai por mais de um minuto, usando várias falas dos filmes. Era a primeira conversa desde o início da doença.

Já adulto Owen conta como ele tinha dificuldade de apreender a realidade que o cercava, mas como tudo ficava mais fácil com os desenhos. As dificuldades de ler as emoções nos outros era minimizada pelo exagero caricatural dos personagens. A complexidade dos sentimentos ficava mais compreensível no didatismo das histórias. E a partir daí um fio de novelo foi puxado, permitindo à família voltar a se comunicar com ele verbalmente, trocar afeto, auxiliar no desenvolvimento de habilidades.

Como a vida não é um desenho da Disney nem tudo dá certo no final. Se muitas dificuldades foram superadas, as remanescentes ainda são enormes. Questões da vida adulta real, como as nuances das relações sexuais, ambivalências,  zonas cinzentas morais, não são abordadas nos desenhos, tornando-os de pouca valia para Owen nesses quesitos. Mas como ele diz, muitos acham que os autistas não querem receber afeto, o que é mentira. Os autistas só querem o que todo mundo quer.

E no fim do dia a gente não quer saber de zonas cinzentas, ambivalências ou nuances do sexo. A gente quer contato e afeto. Se tivermos a sorte de nascer com essas habilidades, tanto melhor. Mas se para tanto for preciso ajuda de um desenho inocente, isso não deixa de ser uma forma de um final feliz. Mesmo que não seja o final. Nem tão feliz quanto gostaríamos.

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Leitura mental

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Por falar em autismo, a editora Intrínseca lançou esse ano o livro Meu menino vadio – Histórias de um garoto autista e seu pai estranho, do jornalista Luiz Fernando Vianna. Seu filho Henrique tem autismo, mas ao contrário de Owen não conseguiu desenvolver comunicação verbal. Vianna conta sua história sem dourar a pílula. Fala dos desafios, da angústia, desespero até, de criar um filho autista. No seu relato cru o leito encontra tudo, dos déficits na estrutura da saúde e lentidão da justiça brasileiras, à incapacidade de amar e desejo de se matar que ele mesmo apresenta. E em meio a tudo isso está seu filho, com suas dificuldades e potencialidades, desafiando o pai a cada dia num exercício que, apesar de toda a dor, só aumenta seu amor.